Quizzik: Produção, Cabine e Pista.

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Foto 1. Quizzik @ 5uinto – Por Pedro Lacerda

Quizzik é um dos caras mais batalhadores e talentosos das primeiras gerações de Djs/produtores da cidade. Sempre antenado com as novas fronteiras e possibilidades sonoras, hoje conta um pouco de sua história para o tuntistun.

[TUNTISTUN] Grande Quizzik, tudo bem? É uma alegria fazer essa entrevista com você que é um dos mais talentosos da cidade. Vamos falar um pouco da sua trajetória, beleza?


Opa. Tudo beleza por aqui. Obrigado pela oportunidade, Gui. Sempre bom trocar ideia.

[TUNTISTUN] Vamos falar um pouco do início de tudo? Conte mais sobre você, onde nasceu e como foi sua infância e adolescência?

Em 1975, meus pais moravam em São Paulo por conta do doutorado do meu pai em Física Nuclear. Só que eles eram um casal muito novo, vivendo de bolsa de estudos, ou seja, sem dinheiro ou estrutura de parentes e amigos por lá. Então, naquele ano, pouco antes de eu nascer, minha mãe foi para a cidade da família, Rio Verde, Goiás, para dar à luz e ter um mínimo de suporte nas minhas primeiras semanas de vida. Dois anos depois, fechados os estudos em SP, meu pai conseguiu uma bolsa de pós-doc para pesquisar nos EUA, onde fomos morar em Tucson, no Arizona, pela primeira vez. Meu pai conta que pouco depois de instalados, num dia em que ele estava comigo num parquinho, uma senhora me viu com aquela cabeleira ruiva, brincando e balbuciando palavras que ela não entendia, e veio puxar papo achando que nós éramos russos. Foi então que meu pai lhe disse que nem ele me entendia pois eu ainda não sabia falar. Dizem meus pais que antes de aprender o português eu fui pré-alfabetizado em inglês. É meio por isso que tenho uma tendência a misturar as duas línguas quando me expresso.

Quando voltamos para o Brasil meu pai conseguiu emprego como professor-pesquisador no Instituto de Física da Universidade de Brasília. Aí começou minha história em Brasília, onde morei a maior parte nas SQN 205 e 206. Nos anos 80 a Asa Norte ainda era bem vazia pois faltavam muitos blocos a serem construídos. Então a molecada vivia fuçando entulho de obra para achar madeira para construir golzinho, fazer taco de bete e nunchaku. Às vezes a gente aproveitava a terra das obras para fazer rampas de bicicross.

[TUNTISTUN] Você sempre foi um cara ligado em música desde cedo? Qual sua relação com a música na sua juventude?

Minha mãe se graduou em piano e artes plásticas na UnB. Então, desde pequeno, a ouvia tocando ou dando aulas de música clássica enquanto brincava e desenhava na sala de casa. Meus ouvidos foram treinados antes de eu ter aulas de teoria musical. Lembro que quando ela ou alguma aluna errava um exercício eu acabava percebendo e meio que corrigia as notas na cabeça sem querer. Então me acostumei a fazer tudo acompanhado de música de fundo. 

Apesar da música erudita em casa, no começo dos anos 80 o rock era o som que a molecada ouvia. Então, como eu queria muito aprender guitarra, em 83 meus pais me colocaram na Escola de Música de Brasília. Só que, naquela época, a metodologia da EMB nos forçava a cursar flauta doce primeiro, depois violino, para só então poder escolher o instrumento desejado. Então, como era muito novo, eu perdi a paciência de tanto esperar. Mas ali aprendi o básico da musicalização, leitura de partitura, tocar flauta, ritmo, solfejo e tal. 

Em 87, já aos 12 anos e morando na gringa pela segunda vez, tive chance de entrar para a orquestra da escola, onde aprendi a tocar contrabaixo acústico. Na nossa última apresentação, acabei ganhando do maestro uma menção honrosa de aluno que mais evoluiu naquele ano. Não que eu fosse um exímio instrumentista, longe disso, mas o elogio público quanto ao meu esforço foi muito importante para reforçar minha relação com a música. Nessa mesma época minha mãe comprou para ela um teclado sintetizador da Casio que tinha uns pads com samples de batida, com viradas e tudo. Então eu passava horas brincando nele. 

Quando voltei ao Brasil, rolou um concurso no festival de música do colégio que tinha uma guitarra como prêmio. Então usei esse mote para criar três músicas no teclado da mãe e as toquei ao vivo com um colega, o Vinícius Ferreira, que hoje é ator conhecido da cidade. Resumo da ópera, uma das músicas até chegou a classificar para a segunda fase, mas não ganhamos nada, claro. Hehe. Mas arrepiei de ver o público cantando junto da gente o refrão dramático que escrevi: “Trevas, trevas, vivemos naaas treevas!” 

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2 – Quizzik FEMCS 1989 – Por Tibério Medeiros

[TUNTISTUN] Quando e como você descobriu a música eletrônica?

Apesar da minha geração nascer ligada ao rock, lembro de no início dos anos 80 ser televisionada a febre do hip hop que começava em Nova Iorque. Quando assisti ao filme Beat Street pirei com o DJ gravando o som das gotas d’água pingando na pia do banheiro e fazendo scratch em outra cena. Arranhei altos discos tentando fazer scratch, sem feltro algum por baixo, com uma agulha Leson no Panasonic do meus pais. Se daquela nova cultura a gente não tinha acesso a picapes com direct drive ou um mixer, ao menos a gente tinha o breakdance pra brincar. Então ficávamos treinando moonwalk, cobrinha e rodopios nas costas debaixo do bloco. 

No final dos anos 80, já com idade para ir às festinhas dos amigos, geral já treinava passinhos para dançar as músicas da moda, que variavam desde os melôs que saíam nos vinis do Furacão 2000, aos hits de versões internacionais dos discos de novela e faixas como Blue Monday, Domino Dancing, Pump Up The Jam, Beat Dis e Theme From S’Express. Engraçado que para nós era tudo balanço. A gente não sabia que já havia os estilos synth pop, eurodance, acid house, freestyle etc. Então, o som 3-em-1 dos pais do dono da festa era sempre disputado por mim e alguns amigos que já começavam a comprar vinis para levar para as festas. Era uma zona. Às vezes fulano nem esperava a música terminar e já puxava a agulha e ficava aquele silêncio enquanto trocava o disco por outra música nada a ver. Sempre rolava treta, mas era divertido. Uma parte boa também era quando a gente armava de colocar as músicas lentas só para tirar as meninas para dançar. Acho que essa experiência foi meu impulso inicial em colocar as pessoas para dançar.  Meu primeiro disco com música dançante foi a compilação Acid House da Som Livre.

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3 – Compilação Acid House Som Livre – Acervo pessoal Quizzik

[TUNTISTUN] Quais foram suas primeiras festas e Djs que te abriram os olhos?

Passada a ralação do 2o grau, passei para Física em 94. A UnB é um universo de festas de CAs e eu recebia filipetas de tudo que é evento. Então a gente experimentava de tudo, desde festas no campus, em casas no Parkway e no Lago a boates como Gate´s Pub, Public House, Capital Club, Tequila Rock. Nesse universo mais pop tocava muito o que a gente chamava de dance, tipo Lina Santiago, Angelina, Jocelyn Enriquez, Robin S e Gala, que, apesar de ter letras cantadas grudentas, já tinham uma pegada mais pista que foi moldando meu gosto. 

Em 96 eu vi que não era tão nerd como meu pai para seguir na Física. Então resolvi mudar para o campo das artes, a exemplo da minha mãe. Prestei novo vestibular e troquei Equações Diferenciais por Projeto Arquitetônico. Ufa! Ali, na Faculdade de Arquitetura, foi onde ocorreu meu apuro estético, seja para o desenho e para meu olhar sobre a arquitetura e a cidade, seja para a música. Para a minha sorte o André Costa (Isn´t), o Marcelo Almeida (Gallo) e o Márcio Comas (DJ Mak) eram meus veteranos de curso e sempre tocavam na Festa da Arquitetura. E o som, especialmente o do André com seu parceiro Pedro Tapajós (The Six), bem eletrônico e esquisito, me cativou demais. Apesar das pessoas chamarem tudo de techno na época, os meninos tocavam muito electro, breakbeat, IDM, hardcore e jungle, sempre com um quê experimental e futurista. Então esse foi o meu debut enquanto clubber na música eletrônica propriamente dita.


Dalí em diante comecei a ficar ligado nos flyers e cartazes de festas eletrônicas da cidade. Acabei entrando também no mailing list do Tuntistun, que se tornou meu principal canal para saber das festas e trocar ideia com gente que realmente amava música. Claro, sempre tinha tretas engraçadas entre os diferentes núcleos de festas. O rei das discussões era o Guem (Twin Cam). Hahaha! O bicho era engraçado. Então comecei a entender as diferenças entre os estilos de música e, reconhecendo os nomes dos DJs e os gêneros que tocavam, passei a frequentar o Wlöd, depois a miQRa, a Deep e outros espaços alternativos que foram surgindo. 

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4 – Flyers Tuntistun – Acervo pessoal Quizzik

Na primeira vez que fui no Wlöd, percebi que havia uns podiums de madeira nos quais as pessoas subiam e dançavam mais destacadas da galera da pista. Uma garota cheia de atitude me chamou a atenção por ela gritar e bater os pés no podium toda vez que parecia reconhecer, já nos primeiros compassos, a próxima música que estava sendo mixada. Era a Marlize. Hehe. Além de dançar na sua e de olhos fechados, os clubbers tinham esse modus operandi característico de se expressar com euforia, fosse reconhecendo uma música ou se abrindo para emoção de um bassline completamente novo. 

Foi então que entendi que, ao contrário do mundo da música pop e suas festas, onde as pessoas precisam criar um vínculo de conforto consigo mesmas e com o meio onde estão, preferindo dançar ao som de músicas conhecidas, o caráter mais instrumental da música eletrônica, usualmente sem pontuações estéticas tão óbvias como refrões cantados, quebra com isso e cria uma libertação incrível para todos na pista. Para ser feliz em festa de eletrônica as pessoas têm que ficar abertas à novidade, ao desconhecido, para então se deleitar com os detalhes sonoros, melódicos e de ritmo. E aí está a diferença de foco do DJ de música eletrônica para os demais, que é de nos levar para um outro mundo. É realmente um momento de entrega, o que corrobora mais ainda para catalisar sentimentos de êxtase e conexão. Claro que uma parte das pessoas toma aditivos, como em qualquer festa de outros gêneros musicais. Mas o caráter de marcação percussiva da música eletrônica proporciona, que usa de princípios tribais, ritualísticos, instiga um dançar único, que por si só pode nos fazer transcender. 

Outra festa que me marcou muito foi uma que você (Gui) produziu na Deep, no subsolo do Rádio Center, e teve o Pedrinho tocando em um banheiro. O flyer já informava que o foco seria uma ode a DJs de Detroit, então a sonzeira foi braba e bem hipnótica. Curiosamente, foi nesse dia que tomei ácido pela primeira vez, logo antes de entrar na festa. Nunca ri tanto na vida. 

A miQRa foi meu xodó porque ela era na 204 Norte e, morando na quadra do lado, eu ia caminhando. Tinha final de semana em que eu frequentava tanto a noite de eletrônica quanto a de indie. Uma festa memorável que ocorreu lá foi a que teve uma performance da Goldgelb, sempre enigmática, que subiu nas mesas de sinuca e começou a dançar com uma roupa de látex que lembrava uma alienígena de tão esguia. Para entrar na pista principal a gente tinha que passar por umas aberturas amorfas em paredes de chapa de aço escovado, se bem me lembro. Uma vez o Adriano Siri, na época do A Culpa é da Mãe, fez uma matéria lá dentro durante uma festa. Daí saiu essa foto no jornal na qual apareço dançando no canto esquerdo. Só nos “sunglasses at night”. hehe

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5 – miQRa 1997 – Quizzik dançando no canto esquerdo

[TUNTISTUN] E logo que você gostou da música decidiu ser Dj/Produtor? Como foi esse caminho?

Acho que antes de tudo é bom lembrar que sempre fui consumidor e colecionador de música. Porém, as músicas que Isn´t & The Six (na época Cnun & Sunrise 1) tocavam em 1996 não estavam nas rádios e nem se achava para comprar na Discoteca 2001 ou na Discodil. Um CD ou outro de big beat eu até achava na Redley Records, mas era só isso. Então a curiosidade sobre os nomes dos artistas esquisitos dos sets dos meninos me fez tomar coragem para puxar conversa com o Isn´t nos intervalos das aulas no ateliê. Apesar de ser muito misterioso sobre suas descobertas, ele dava umas boas dicas. “Pesquise os selos Warp, a Rephex e a FatCat Records”, uma vez ele disse. Outra vez, de tanto encher seu saco, ele me gravou duas fitas K7 de 90 minutos com faixas que ele tocava nas festas. Quando me entregou eu perguntei: “E os nomes dos artistas e das músicas?” Foi quando ele respondeu: “Aí você já está querendo demais, né?” Hahaha. Então uma chamei de Cnun e a outra de Drum n Bass. Na época não havia facilidades como o Shazam. Isso me fez lembrar que geral tampava o label do disco para a concorrência não conseguir ler.

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6 – Fitas K7 – Acervo pessoal Quizzik

Meu ponto de virada foi em 1997, quando o Mak deu uma oficina de mixagem na Semana do Calouro lá na FAU. Ali ele nos ensinou noções básicas de como funcionam as MK2, o mixer, como contar compassos, beatmatching e tal. Nesse momento que pensei que seria possível eu me tornar DJ algum dia. Não sei se foi o Márcio, mas alguém me deu o toque de que havia uma loja chamada WOM, cuja filial da Asa Norte depois virou Sounds, onde eu conseguiria pesquisar vinis de música eletrônica. Lá comprei meu primeiro vinil de IDM, o single My Red Hot Car do Squarepusher, e vários CDs. Aliás, lá na Sounds conheci o Cláudio K, que era dono e tinha o programa Eléktron na Rádio Cultura, e troquei muita ideia com o Gevous, Collares e Buff, que trabalhavam como vendedores. 

Nessa época eu tinha outros dois amigos, Cristian e Georges (Gabão), que cursavam Engenharia Elétrica, que já tocavam juntos em algumas festas privadas e que, por viajar bastante para o exterior, compravam altos singles e compilações em CD. Então a gente emprestava CDs uns para os outros e gravava em Minidisc o que mais interessava. Importante lembrar que naquele tempo o mp3 estava surgindo, mas ainda era raro alguém ter gravador de CDR. Então certa vez eu aluguei os equipos da dupla para uma festa de aniversário que organizei. Eles tinham um mixer da Genesis (que anos depois eu viria a comprar deles) que tinha um sampler que armazenava samples de até 12 segundos. Tanto eles quanto eu não fazíamos beatmatching porque ninguém tinha CDJ. A gente tocava com um CD Player, um MD Player e um Discman e só fazia crossfade entre os canais. De qualquer forma era legal porque a gente conseguia intervir nas músicas gravando e soltando samples ao vivo, mesmo que de forma mais crua e sem muita técnica.

Nesse mesmo ano, com meu primeiro acesso a softwares tipo Gold Wave e Wave Studio, também comecei a experimentar com edição simples de música direto no arquivo WAV. Pense num processo tosco. Eu escolhia uma parte legal da música, contava o BPM e calculava qual o tamanho do loop ideal em medida de tempo. Daí copiava e colava quantas vezes queria repetir o trecho. Às vezes dava um paste-mix para misturar com alguma parte existente, jogava uns efeitos e pronto. Cheguei a criar uns 11 protótipos de música, mas parei nisso porque a faculdade estava começando a pesar no meu tempo.

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7 – Quizzik CDs de produções – Acervo pessoal Quizzik

Passados alguns anos, em 2001, já formado e trabalhando como arquiteto, consegui um tempo para voltar a me aventurar com música. O Ênio Sanchez, outro amigo também da Elétrica, que era clubber nos anos 90 e andava com o Raxa (Tomás Rodrigues), me repassou a primeira versão do programa Fruity Loops, um sequencer para produção de música que tinha samplers e drum machines separados em canais diferentes. Em 2002, já com algumas faixas prontas, fiquei sabendo do concurso internacional da Red Bull Music Academy, que providenciava de graça uma imersão de 15 dias com palestras e aulas de mixagem e produção com expoentes da cena. Então meti as caras, mandei meu material, que depois virou meu CD independente chamado Retrabalho. Então,  sem nenhuma história profissional como DJ ou produtor, dentre 1600 inscritos, fui um dos 60 escolhidos, juntamente com o The Six e a DJ Donna, de Brasília, o Rodrigo (Evol) de Goiânia – que virou meu irmão do peito -, além de outros DJs e produtores gringos bem legais. Foi experiência ímpar. Tivemos aulas com o Four Tet, Carl Craig, Roman Fluegel, Mark Pritchard (Jedi Knights), Robert Owens, Madlib, Cut Chemist, DJ Storm, Onsulade, Patife, Zé Gonzales e outros. Isso me fez perceber que tantos anos investindo meu tempo em música tinham finalmente delineado um caminho bem legal para eu trilhar mais a fundo. 

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Foto 8. Aulas RBMA 2002 – Por Carol Quintanilha.

A partir daí as portas se abriram para mim em Brasília. Tenho muito a agradecer, principalmente aos primeiros caras que me ajudaram daí pra frente, como o Pedro Tapajós, que me convidou para a primeira gig, em 2002, no lounge da Orange, o Ricco – um dos melhores DJs de Brasília, que me convidou para tocar na minha primeira pista mesmo, na festa Faces, o Fredy XTC, que me chamou para montar o ANTI junto do Tomás Seferin, o Komka, que me chamou pra tocar no Space Bar e em várias de suas futuras festas e o Hopper, que me colocou em tantos lineups fodas.

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9 – Quizzik – Bleep DJs CONIC – Por Giovani Fernandes

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10 – Flyers de festas – Acervo pessoal Quizzik

[TUNTISTUN] Diz para gente 5 músicas que te marcaram no início da sua descoberta na música eletrônica?

Squarepusher – My Red Hot Car [Warp Records]

Essa track foi a primeira com a qual tive feedback do público. Lembro especificamente do Maher, que eu não conhecia, vindo elogiar na minha primeira gig lá no Orange. Nesse mesmo momento o Komka, que também iniciava sua carreira, parou perto de mim e tirou uma foto para colocar no recém-criado site do Cangangroove, que fazia a divulgação das festas. Para mim a genialidade do Squarepusher está na qualidade e minúcia dos detalhes de produção. Me surpreendo até hoje com sua paciência pois sei que dá muito trabalho retalhar a música do jeito que ele faz.   

LFO – LFO (Leeds Warehouse Mix) [Warp Records]

Nem sei se era a LFO sendo tocada naquela primeira noite em que fui no Wlöd, a qual citei acima. Mas, de alguma forma, eu passei a associá-la a aquele meu momento de descoberta do metiê dos clubbers. Me batia uma alegria tremenda sempre que vinha a primeira pausa do instrumental com a voz robótica dizendo “EL-EF-OH” seguida do synth “Tan-tantan-taan-tan”.

Members of Mayday – Sonic Empire [Low Spirit Recordings]

Acho que foi o primeiro clipe que vi na MTV que representava a forma com a qual a gente se vestia, dançava e se portava. Minas de cabelo curto e look heroína chique, os caras com calças largas de skate e piercing e geral de cabelo colorido.

Underworld – Born Slippy (Nuxx remix) [Junior Boy´s Own]

Como não amar essa música? Trainspotting fez história porque, a exemplo do filme Kids, expôs as loucuras e incertezas pelas quais passava a juventude dos anos 90. A melodia dos pads de Born Slippy eram certeza de catarse na pista. Todo mundo amava. Era a hora de se abraçar. 

Splash – Babylon (DJ Trace Remix)

Com sorte achei na Discoteca 2001 o CD Jungle vs Hardsteppers. O que me chamou a atenção de início foi o desenho meio grafite da capa. Na primeira audição, já a primeira música, essa Babylon, foi uma experiência muito louca. Começa introspectiva e misteriosa, então entra um beat quebrado muito rápido, de pirar, que muda constantemente, que sempre traz novas cenas com referências a hip hop e ragga. Era a mistura perfeita entre futurismo e urbanidade. Juntamente com as produções de Sheffield, esse disco viria a me influenciar a tocar um pouco de jungle, drum & bass e drill ‘n bass no início da minha carreira.

[TUNTISTUN] Você participou ativamente de uma época que o curso de Arquitetura da UnB era um dos polos da música eletrônica na cidade, muita coisa legal aconteceu na década de 90 na universidade, conta pra gente, para quem não conheceu a história, como foi aquele período? Quais festas e acontecimentos foram marcantes para você?

A Festa da Arquitetura era demais! Ela era organizada coletivamente pelos alunos do curso para arrecadar fundos para a formatura da turma prestes a pegar o canudo. Ela já era famosa antes dessa minha geração pois juntava a criatividade plástica e arquitetônica dos alunos, o que sempre resultava em festas com cenografia super bem-produzida. Porém, na segunda metade dos anos 90, quanto eu estudei lá, ela teve um papel fundamental para a cena de música eletrônica de Brasília porque calhou de, num período de pelo menos 5 anos, ter à frente das picapes DJs de eletrônica que eram alunos do curso. Então essa conjuntura foi mágica.

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11 – Crachá e flyers da Festa da Arquitetura – Acervo pessoal Quizzik

Quatro edições me marcaram muito. Por sorte consegui fotografar a decoração de algumas dessas festas. Uma, chamada Stuplash!, tinha como tema o fundo do mar. Alguns alunos, que fizeram oficina de estrutura em bambu com um dos nossos professores, criaram uns tubarões, arraias e um monstro do Lago Ness e os dependuraram nas vigas do meio do ateliê. Outros alunos criaram painéis em rolos de papel pardo com desenhos gigantes com referências marinhas. A Aninha e umas colegas, que desenhavam muito, criaram uma sereia lindona bem gigante. Todo mundo era voluntário, então ninguém se opunha ou censurava qualquer iniciativa de ajuda. Então não sei se fui entrão demais, mas rasguei um bom pedaço de papel, coloquei no chão do lado das meninas, peguei um carvão emprestado e comecei a desenhar um Namor puxando uma língua de um tubarão. Todo amigo que passava e gostava da ideia, me oferecia ajuda e entrava no barco. No fim foi uma criação conjunta com os brothers Dionísio, Bonna, Olavo e Gustavo. À noite, aquela pista principal iluminada com gelatinas azuis e verdes sobre a decoração e os painéis de vidro criaram um grande aquário bem maneiro. 

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12 – Festa da Arquitetura UnB – Stuplash – Foto por Quizzik
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13 – Festa da Arquitetura UnB – Stuplash – Foto por Quizzik
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14 – Festa da Arquitetura UnB – Stuplash – Foto por Quizzik

Teve uma edição, da qual não me lembro o nome, onde a turma do André Costa, Marcelo Sávio, Goldgelb, Dani Brilhante, Raul, Patrícia e Zé Helder criou uma pista exclusiva de eletrônica numa sala no subsolo do Minhocão, onde tínhamos aulas de Desenho Arquitetônico com o Zé Maria e de Desenho e Plástica com o Reinaldo e a Dulce. O teto do ambiente foi revestido com um grande plástico transparente que suportava uma grande quantidade de bolinhas de isopor, que o faziam fletir criando uma barriga no meio. A gente pulava e dava socos nesse plástico que, com o estrobo e a luz negra, criava um efeito visual bem legal. Mas o detalhe mais louco estava na entrada dessa pista, onde substituíram a porta por uma vagina gigante feita de espuma. Todo mundo que descia as escadas e se deparava com a dita cuja já se despia de preconceitos e entrava naquele útero lúdico. 

A mais notável, para mim, foi a edição dos Dinossauros. Naquele ano houve um rolo de dano ao patrimônio numa festa de outro curso dentro do ICC, então o reitor acabou com as festas dentro do prédio. Daí a organização teve que cercar uma grande área externa adjacente ao Minhocão, entre o ateliê e o teatro de arena. A galera do bambu já estava expert na técnica construtiva – foi um pouco antes deles construírem duas ocas gigantes nesse espaço -, então para criar uma ambientação jurássica o pessoal criou vários dinos espalhados pelo jardim. Teve desde um pterodátilo, dependurado entre o prédio e um poste, a uma grande cabeça de T-Rex sobre o minhocão. Mas a cereja do bolo foi momento dos brontossauros que saíam do bambuzal mais próximo à cabine do Isn´t & The Six. Eram dois pescoços compridos feitos de conjuntos de bambus amarrados e puxados com pedras por uns dias para criar uma curvatura ideal sem comprometer seus caules. Depois eles grudaram na extremidade umas cabeças articuladas, as revestiram em espuma e fecharam os detalhes em spray. Os caras eram gênios. Todo mundo que entrava na festa ficava boquiaberto. Num dado momento da madrugada um maluco inventou de se dependurar e balançar a base de um dos pescoços. Em pouco tempo outros se juntaram a ele e fizeram o mesmo com o outro pescoção. Não sei se eu já tinha passado do ponto, mas o efeito da luz estroboscópica batendo naqueles bichões sendo balançados no ritmo dos breakbeats deu pala muito real. Aquele momento foi o ponto alto da festa.  

Uma última edição que merece lembrança foi a com temática de Revolução Industrial que aconteceu num grande galpão no SIA. Acho que foi pessoal do Lounge Cabelo que criou uma pista com uma lycra gigante, esticada à meia altura, cheia de buracos. Quando as pessoas dançavam só se viam as cabecinhas flutuando. Dessa festa não lembro de muito porque fiquei praticamente a noite inteira trabalhando no bar e, à certa altura, cortei a mão cortei a mão num vídeo dentro do freezer e tive que voltar para casa.

Trabalhar no bar era bem legal porque, ao servir, a gente acabava conhecendo muita gente dos outros cursos e da cena. E, claro, como era universitário quebrado, era bom tomar umas cervas de graça. Hehe. Então nessa época eu fiz de tudo na festa, de decoração a venda de ingressos, bar, caixa etc. Isso tudo me deu uma boa experiência para anos depois poder coproduzir festas como o ANTI, a Toranja e a Moranga.

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25 – Quizzik – Revista 8 GYN 2005

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26 – Quizzik – Por Patrícia Gontijo

Nos anos 2010, já com 8 anos de experiência em discotecagem, tive a felicidade de retornar à Festa da Arquitetura já como DJ, em algumas edições que já tinham sido transferidas para o Centro Comunitário. 

Para finalizar a relação importante entre a Faculdade de Arquitetura e a cena de música eletrônica de Brasília dos anos 90, adiciono o seguinte. Em 2002, conversando com o Giuliano Hopper na sua antiga loja Megatribe, no CONIC, encucado, ele me perguntou algo tipo: “Qual é a de vocês arquitetos que inventam de também trabalhar com música? Tem você, o André, o Mak, o Gallo, o Cello e ainda os malucos tipo o Aphex Twin, o Jega e o µ-Ziq.” Eu ri demais com aquela constatação. Na época eu nem tinha maturidade para elaborar sobre aquilo. Um tempo depois li a seguinte frase, que alguns atribuem ao Schopenhauer e outros ao Goethe, que acho que responde aquela indagação: “Arquitetura é música congelada”.

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27 – Quizzik – 5uinto_bar – Por Amanda Goes

[TUNTISTUN] Você foi um dos primeiros produtores de música eletrônica da cidade, muita coisa mudou da década de 90 para agora? O que você vê de positivo e de negativo do passado e do momento atual para quem gosta de produzir?

Acho que a tendência é que a evolução da tecnologia facilite cada vez mais o acesso ao conhecimento e à técnica. No meu início não havia tutoriais de Youtube, templates e sample packs. Eu simplesmente ouvia as músicas e tentava emular aqueles sons em sintetizador ou sampleando os breaks de músicas pouco conhecidas direto de vinis e CDs. Gosto de lembrar que no início do meu processo, os softwares ainda não tinham a capacidade de modificar o tom do sample sem alterar o comprimento da onda. Isso só chegou, pelo menos a mim, com o efeito warp do Ableton, o que facilitou demais.  

A mesma coisa eu fazia quanto ao aprendizado de discotecagem. Eu ouvia sets gravados e tentava adivinhar o que o DJ tinha feito. E, nas festas, colava na cabine do DJ e ficava de butuca observando as mixagens. Então penso que as novas gerações já largam mais à frente nessa corrida, o que é algo muito positivo. Reinventar a roda é contraproducente. Por outro lado, a facilidade de acesso à informação também produz uma concorrência enorme, o que deixa bons lançamentos à deriva em meio a tanta música na rede.

A real é que se destaca quem ousa mais que a média. Lembro muito de uma frase que ouvi na RBMA: “Todo mundo usa sample de 808, 909, etc. O que te diferencia dos outros é a distorção que você coloca naquele som, é a alteração daquele timbre.” A história da nossa cidade já nos dá esse respaldo, para sermos diferentes. Então o lance é lembrar disso, manter a cabeça aberta e seguir experimentando nas criações. 

Ah sim, outra coisa boa que acho que melhorou hoje em dia é a comunicação. É sempre bom trocar ideia com quem também está produzindo. Aprendi muito nas parcerias de produção que tive com o Tomás Seferin, o Ricco e o Pop. A gente sempre aprende uma abordagem distinta da nossa, com técnicas mais fáceis que as que a gente usa, novos timbres, visões diferentes quanto a estrutura de música, picos e vales, modo de pensar as melodias, as harmonias etc. 

Quizzik
28 – Quizzik – RedBullMusicAcademy 2002 – Por Carol Quintanilha

[TUNTISTUN] Você até hoje está bem atuante na produção musical, conta um pouco da atualidade, dos seus lançamentos e parcerias, o que tem de bom para compartilhar?

Com o fim da Moranga em 2018, eu e meu parceiro e irmão Fábio Popinigis decidimos parar com o DeltaFoxx. A pista da festa era o nosso maior output para testar os singles e remixes que a gente produzia. Ficamos exauridos depois de nos sentar semanalmente por 7 anos para compor música. Então ele seguiu com um trabalho bem maneiro de dreampop e shoegaze chamado That Gum U Like.

DeltaFoxx
29 – DeltaFoxx – Picnik – Por Rafael Dourado

Já eu fiquei em um hiato de lançamentos até esse ano, quando decidi voltar para as minhas raízes de IDM e electro. Foi quando produzi um remix para a faixa Terror Turbo do talentoso Luis Fernando (^L_), que foi lançado pelo selo berlinense Antime.

Também estou com outros projetos em maturação que devo revelar mais para frente. Mas, aproveitando o ensejo, tenho um novo single que foi lançado essa semana pelo selo 6 Plusten Records, com premiere pela Tracklistings. A faixa, que se chama “Dodging Bullets 101”, é um IDM que foi composto num crescendo que evolui através de diferentes estados de espírito e cenários estéticos, sempre mudando enquanto se constrói, como numa metáfora de nós mesmos passando pela aleatoriedade da vida. O nome dela faz uma referência irônica, em inglês, a um livro imaginário de regras de como lidar com os desafios e as lutas diárias que encontramos. Mesmo que de vez em quando a gente saiba como abordar novos problemas, na maioria das vezes não temos ideia. Daí a vida nos premia com aquela rasteira bonita. Então, tirando o lado piegas do processo de aprendizado, às vezes, tudo o que a gente precisa é de uma boa trilha para nos dar um gás para seguir.

Premiere via Tracklistings:

Link para a compra:

https://6plusten.bandcamp.com/track/dodging-bullets-101

Quizzik
Foto 30. Quizzik – Let´s Dance – Por Daniel Silva

[TUNTISTUN] E o que você curte além de música e arquitetura, tem mais algum assunto que te apaixona?

Acho que minhas paixões estão intimamente ligadas ao ato de me expressar. O desenho é uma paixão que enveredou na arquitetura, então acho que não preciso comentar. O canto também faz parte do combo da música.

Já o basquete está ligado à expressão do corpo, da dança contemporânea e da performance como trabalho de ator, de quando cursei Artes Cênicas na UnB. Mas larguei para focar na música mesmo, hehe. Tive um professor lá no IdA, o Fernando Villar, que brincava que eu queria ser o da Vinci, todo multiartista, atuando, compondo trilha sonora, pensando cenografia etc.

Mas, voltando ao basquete, quem me acompanha nas redes vê que volta e meia posto algo sobre o esporte. Querendo ou não, como comecei a jogar nos EUA ainda menino, e lá o esporte tem como trilha certa o hip hop, para mim o basquete é assunto correlato à cultura DJ. Apesar de eu não ser DJ de hip hop, esse gênero é a base dos beats de altos artistas antigos de IDM (da vertende blip hop) que curto e toco, como Gescom, Boards of Canada, Funkstörung e Prefuse 73. Veja só, era para eu falar de outra paixão e acabei voltando para a música. Hahaha. Bem, não sei para vocês, mas vejo total coerência nessas minhas associações. Tanto é que, ao longo dos anos, conheci alguns amigos DJs, tipo o Wash, Maze One, Weirdo e KeylerO, que também têm essa mesma ligação com o basquete. 

Quizzik
31 – Quizzik – RBMA InfoSession Gyn – Por Claudio Cologni

[TUNTISTUN] Pode indicar 5 músicas mais recentes que você tem curtido?

Antes de falar sobre as músicas especificamente, tenho curtido pesquisar os lançamentos do selo Computer Processing Unit – CPU Records, que é de Sheffield, a terra da Warp Records. Eles estão mandando muito bem nos releases de electro e IDM e têm no elenco uma leva foda de mulheres produtoras como Tryphème e Mrs Jynx, além do maltês Microlith que, para a minha tristeza, é daqueles artistas geniais que você descobre depois que ele já faleceu.

Microlith – I Wanna [CPU Records]

O estilo dele me lembra muito a fase analógica dos discos Analord do Aphex Twin misturada com uns synths melódicos do µ-Ziq.

The Fear Ratio – Ferm [Skam]

Esse duo foi uma descoberta recente. O Mark Broom, produtor de minimal dos anos 90 faz parte dele. Aparentemente, eles já eram do elenco da Skam faz tempo, mas confesso que não pesquisava as produções do selo desde o início dos anos 2000. Eu, sinceramente, tinha a impressão de que eles tinham falido depois do boom da Warp, a exemplo do Rephlex, que deu uma parada naquela época.

Ross From Friends – The Daisy [Brainfeeder]

Esse moleque é muito foda. Pelo que sei ele começou produzindo o que recentemente classificaram como Lo-Fi House. Mas ele tem se mostrado cada vez mais versátil, com timbres de pads lindíssimos associados a beats mais quebrados que me lembram o Floating Points em sua fase inicial puxando para o dubstep.

Clark – Small [Throttle Records]

O Clark, conhecido pelo peso nos electros distorcidos que sempre lança pela Warp, tem produzido várias trilhas sonoras, o que ampliou seu espectro estético em muito nos últimos anos. Essa faixa é uma das mais bonitas dele.

Com Truise – I Dream (For You) [Ghostly International]

Sou fã dele porque, mesmo usando de estética retrô, ele consegue ser muito autêntico e firme desde que começou. Mesmo existindo muitos artistas de synthwave por aí, é como se ele seguisse solo com sua vibe, pois sua paleta de timbres é bem específica.

[TUNTISTUN] O que você acha da energia da pista de Brasília?

Sou meio suspeito em dizer pois, além de Brasília ser a minha morada, minha carreira de arquiteto no serviço público acabou por enveredar em prol da sua gestão urbanística, tendo como premissa sua preservação como bem tombado. Então amo essa cidade, sua história e o que ela envolve e representa em vários campos simbólicos. E, consequentemente, como a cidade é sui generis, seria natural que sua população também o fosse. 

A exemplo da própria urbe, concebida segundo princípios à frente do seu tempo, a cena eletrônica da cidade é vanguardista desde sua gênese, como documentam o próprio Tuntistun nos relatos de suas entrevistas. Com isso, é natural pensar que todos seus atores tenham essa verve mais ousada, menos lugar comum. Se o nosso público dos anos 90 já era aberto a dançar música eletrônica experimental, tendo em vista esse legado, não tenho como não esperar menos das gerações subsequentes, eu incluso, seja enquanto clubber ou artista. Então essa energia ímpar está entre nós. Às vezes, para isso aflorar, tudo o que a gente precisa é de certa audácia de quem está comandando a pista. 

Quizzik
32 – Quizzik – Por Pedro Lacerda

Caso você queira saber mais sobre as histórias da década de 90 em Brasília acesse o meu blog: https://www.djoblongui.com/1997-musica-eletronica-em-brasilia/

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DJ Oblongui

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