Entrevista com Komka

Dj Komka: Um bate papo sobre história, carreira e produções

DJ Komka

Vamos agora inverter os papéis, pois da última vez eu participei de uma entrevista que você organizou, abrindo o seu programa TRMSMSSN. Primeiro gostaria de contextualizar um pouco essa entrevista. Pra mim você, da geração que veio após 2000 é um dos grandes talentos e valores da cidade. Como DJ tenho certeza que você está em um nível muito alto, e tem uma história como produtor de noites. Hoje vamos falar um pouco disso.

Komka, tudo bem? É uma alegria fazer essa entrevista com você.

Obrigado pelo convite, Gui! Não pude deixar de convidá-lo para falar da cena eletrônica em Brasília, afinal você fez parte do início e é importante que o público entenda a história da música eletrônica. Fico feliz que admire meu trabalho e saiba que é recíproco. É um prazer compartilhar minha história contigo.

Conta um pouco sua história, você nasceu aqui? Sua família é de Porto Alegre ne? E quando veio para Brasília? Se adaptou de cara? Gostava de escutar o que?

Sim, eu sou brasiliense, apesar da minha família ser toda gaúcha. Meus pais vieram parar aqui porque meu pai é filho de militar, e veio morar aqui ainda nos anos 60. Minha mãe deixou sua família em Porto Alegre para viver o amor de sua vida.

Coincidentemente, minha relação com a música eletrônica começou no único ano que morei em Porto Alegre, precisamente em 1999, quando morei na cidade para acompanhar minha mãe, que na época lutava contra o câncer. Eu tinha 14 anos. Era o início da mp3, do Napster, e eu passava horas baixando música e pesquisando novos sons. Era também época da MTV e artistas como Prodigy e Underworld já faziam muito barulho. Também era uma época em que eu curtia industrial, tipo Ministry, KMFDM, Rammstein e outros sons que me aproximaram dos sons eletrônicos. Lembro também de baixar o Rebirth, um software da Propellerhead que simula a 303, 808, 909. Produzi os primeiros sons com ele, gravando em fita k7 para ouvir depois. Bons tempos!

Você, no meu ponto de vista, é um dos DJs mais emblemáticos de Brasília e sei que viver disso não é para qualquer um, conta para mim, o que te levou a despertar para a música eletrônica? Tenho uma foto (que vou por no aqui) sua em uma FUSE por volta do ano 2000 olhando os DJs, novinho de tudo.

Olha, eu já ouvia muita música e tocava guitarra, mas lembro que quando comecei a ouvir sons de sintetizadores, aquilo me chamou muita atenção. Então foi um processo até começar a digerir sons totalmente eletrônicos. E é aí que o industrial teve o seu papel, pois é uma fusão de metal com eletrônico. Nessa mesma época, mantinha contato com alguns amigos através do mIRC e eles me contavam sobre as festas que eles estavam descobrindo, como é o caso da Underground Movement que, se não me engano, teve sua edição de 99 no Pátio Brasil. Eles me relataram noites incríveis e aquilo me despertou muita vontade de conhecer. Foi só eu voltar a Brasília no ano seguinte que comecei a ir a festas eletrônicas.

DJ Lango e Komka na FUSE da APCEF do ano 2000

Quando começou a gostar de música eletrônica você imediatamente pensou em ser DJ? Quando Despertou para a discotecagem? Quem foram os DJs que você viu no início que te levaram a se interessar

Eu comecei a pensar em ser DJ depois de um período em que comecei a frequentar as festas de música eletrônica. Precisamente, voltei a Brasília em 2000, frequentei festas durante todo o ano, e no ano seguinte aprendi a discotecar, e fechei o ano de 2001, exatamente na virada do ano, tocando pela primeira vez em uma festa eletrônica. É até curiosa essa história, porque foi uma daquelas festas de réveillon que aconteciam na casa de alguém. Sempre tinha alguém que emprestava a casa para a galera fazer uma festa eletrônica. E neste ano, eu tinha um mixer e um par de CDJs 100, e lembro que emprestei o mixer e pude abrir a festa em contrapartida. Lembro que o The Six tocou nesta festa e veio elogiar meu set. Eu já conhecia o Hopper também e, se não me engano, foi ele que me colocou em contato o pessoal que o organizou a festa e tinha a necessidade de um mixer. É nostálgico lembrar disso…

Vamos falar um pouco do 5uinto. O 5uinto talvez seja a noite regular que mais durou na cidade, foram quantos anos, desde o início no galeria até a saída da 904?

O 5uinto começou no dia 7 de junho de 2007. É um projeto idealizado pelo Ruiz Lopes e pelo Bruno Iunes e visava estabelecer uma noite fixa em Brasília às quintas-feiras. Eu conhecia o Ruiz fazia pouco tempo, e ele me falou desta idéia que coincidia com meus objetivos na época. Eu acabei entrando no projeto, ainda durante sua concepção, com o know-how de curadoria artística, pois eu já fazia muitas festas na época e conhecia vários artistas. Começamos o 5uinto então no dia 7/6, no dia do aniversário dos meus filhos, e lembro bem que a primeira noite tocamos eu, você e o Luiz Roar (Ganjão). O 5uinto perdurou no Espaço Galleria durante 10 meses e transferimos a noite para o Blackout Bar, na 904 sul. Foi mais ou menos nessa época que o Bruno Iunes deixou a sociedade e mantivemos o projeto na 904 durante praticamente uma década, com um pequeno hiato em 2009, quando o Blackout Bar fechou e passou a ser administrado pelo Thiago Carvalho, que tornou-se nosso parceiro e posteriormente nosso sócio na época em que o 5uinto tornou-se bastante popular.

8 meses de 5uinto no espaço Galleria

Eu posso dizer que tenho uma certa tristeza, infelizmente não fui um frequentador assíduo, como eu gostaria, do 5uinto. Foram vários fatores, foi uma época que eu estava trabalhando o dia todo e estudando a noite, depois tive filho, e ficava complicado eu ir em muitas quintas feiras lá. Mas acompanhava muito, ficava triste de perder tanta gente que eu gostava, mas, como você, sempre generoso, me chamava pra tocar, eu pude viver experiências maravilhosas lá. Adorava tudo ali. Mas eram outros tempos ne? O que você vê de diferente na noite, nas festas, na música da época que você era um menino interessado em ser DJ, e na época que virou um dos grandes DJs e empresários da noite eletrônica da cidade, e para o momento atual da cidade? O que você pode destacar?

Eu sempre tive alguns pilares na hora de montar os line-ups. O primeiro é fomentar a cena local, apostar nos nossos talentos locais que sempre foram muito competentes. Eu sempre tive muito orgulho da cena de Brasília. O segundo é valorizar nossa história, não esquecer de quem no passado trabalhou para chegar onde estamos hoje. E o terceiro é dar oportunidade a novos talentos. Então os line-ups do 5uinto eram assim: DJs veteranos, DJs novatos e alguma atração de fora. Infelizmente não pude colocar todo mundo pra tocar, porque eu sempre busquei artistas com a proposta sonora que se adequava ao projeto. Neste ponto eu era bem chato. Espero que, quem não tocou no 5uinto, não tenha levado pro lado pessoal, porque a questão era a música, nada mais.

Sobre as diferenças do passado para o presente, são muitas. Indo lá atrás, o que mais me chama atenção é o acesso a informação. Na época que comecei a tocar, ser DJ era para poucos privilegiados que tinham acesso (e dinheiro) para comprar discos, pois só tinha as músicas quem tinha discos. Com a chegada do Beatport, das CDJs 1000 que se assemelhavam aos toca-discos, o acesso às músicas ficou bem mais fácil e começaram a surgir muitos DJs. Ali era o início de uma nova era, que tornou a música eletrônica e a discotecagem muito mais acessível, considerando ainda a popularização de softwares de mixagem, controladoras etc. Muitos DJs torceram o nariz na época, afinal estavam perdendo espaço em meio ao surgimento de tanta gente nova. Mas isso estimulou cada vez mais os artistas a se superarem, a produzirem suas próprias músicas, a saírem da zona de conforto para sobreviverem a um mercado que estava crescendo cada vez mais. A cena club começou a se fundir com a cena de raves. As festas de trance começavam a abrir espaço para o techno e house com “pistas alternativas”, os públicos começavam a transitar entre as duas cenas e isso é saudável. O 5uinto surgiu mais ou menos nessa época.

Sobre hoje, eu sinto que não posso opinar muito, pois desde que fechamos o Club 904 em 2017, até 2019 que deixei definitivamente o 5uinto, eu fui aos poucos me desligando do mercado de produção de eventos e passei a me concentrar em produzir minha música de uma maneira mais despretensiosa. Também deixei minha carreira de DJ para focar na produção musical. Então, resumidamente, estou por fora do mercado e feliz em produzir minha música com a bagagem de quase duas décadas em que pesquisei muita música e produzi mais de 500 festas. Hoje tenho prazer em lidar com a música de uma maneira mais leve, sem me preocupar com mercado, tendências etc. Produzo o que vem de dentro, espontaneamente, sem aquele peso da obrigação, de ter que monetizar com isso. Eu prefiro assim.

Você certamente já ficou pensando em sair de Brasília, acho que muitos DJs sentem isso algum momento. O que te levou a ficar na cidade? Você acha que a realidade da cidade comporta a vida para alguém que quer viver exclusivamente de música? Seja DJ ou produtor?

Já pensei em sair de Brasília em alguns momentos, até para tentar a carreira de DJ fora daqui, mas isso faz muito tempo. Eu tive filhos muito novo, e somente hoje eles já estão maiores, quase adultos. Então durante muito tempo eu tive esse vínculo de família, e também da empresa que fiz parte durante 12 anos. Hoje eu estaria mais livre para tentar a vida em outro lugar, mas a realidade de pandemia, do mercado de eventos ter parado durante tanto tempo me fez dar início a um projeto antigo na área de alimentação, e mais uma vez volto a formar raízes por aqui. E acho que por aqui ficarei.

Sobre viver exclusivamente de música em Brasília, é sim possível, mas sem depender do mercado local. Dá para viver de música de muitas maneiras. Dá para morar em Brasília e viajar para tocar aos finais de semana. Dá para produzir trilhas, áudio publicitário, ter uma produtora de áudio. Dá para dar aulas de produção, de discotecagem, presencial ou virtualmente. Enfim, são muitas possibilidades. No meu caso, como produtor de eventos local, as coisas foram ficando difíceis desde 2014 com o início da crise econômica. Já não estava fácil produzir eventos desde então, e culminou neste ano com a pandemia. É doloroso pensar nisso, mas devemos sempre olhar com bons olhos e buscar nos reinventarmos pois devemos estar sempre prontos para mudanças. Espero que em breve as coisas se normalizem e tenhamos dias melhores.

O que você sente falta na cidade?

Sinto falta de uma cena mais unida. De um intercâmbio de artistas como pude fazer no passado. Os núcleos se fecharam muito, cada um produzindo seus projetos, com seus DJs. Sinto falta de mais investimentos, mas isso é em decorrência de um péssimo período econômico que vivemos, que já faz anos. Sinto falta de mais incentivo à cultura, à música por parte do Estado. A música eletrônica deve ser vista como linguagem musical, como cultura, e não como trilha sonora de festas regadas à álcool. Acho que a música eletrônica merece hoje uma abordagem mais cultural, mais artística, vanguardista, sem se prender exclusivamente à vida noturna. E isso depende da gente, de quem faz música, de quem produz eventos, levar a música e a cultura eletrônica ao público de outras maneiras.

O que você acha da pista da cidade?

O público em Brasília sempre foi muito receptivo e caloroso. Sempre vibrou com a música, sempre valorizou os artistas. Foi muito gratificante produzir eventos aqui durante todos esses anos. Eu espero poder em breve contribuir novamente para a nossa cena local. E ressalto a importância de termos uma abordagem mais cultural, de levar a informação ao público, de estudarmos a música, a história da música, a tecnologia e o que podemos tirar proveito dela para produzirmos novos sons, novas experiências. A música eletrônica é muito maior do que uma pista de dança e é nosso papel desmistificá-la principalmente para quem não a valoriza.

DJ Komka em ação

Você conhece os DJs da nova geração? Tem alguém que você ouviu que merece atenção?

Infelizmente não. Já faz um tempo que estou afastado e não acompanhei os últimos tempos. Mas isso não é só em Brasília. Como disse antes, não tenho pesquisado novas músicas, novos artistas, e me dedicado exclusivamente a produzir minha música. Por um lado, isso é bom pois consigo olhar pra dentro de mim, me conectar com minha essência e influências sem me preocupar com o que está acontecendo, por outro é ruim, pois deixo de conhecer gente-nova e talentosa que não tenho dúvidas estar fazendo um excelente trabalho. Mas tenho certeza que é só um período e logo organizarei melhor o meu tempo. O fato é que tem sido muito difícil conciliar tudo na minha vida e se for te explicar o por quê, seria uma nova entrevista (risos).

E produtores nacionais, o que você tem achado das produções nacionais? E as locais?

De anos pra cá, os produtores nacionais entraram definitivamente no mercado internacional. E isso é inspirador! Ver gente como ANNA, Victor Ruiz, Alex Stein, L_cio, dentre tantos outros brilharem Brasil a fora dá muito orgulho e motivação para acreditar na música e que é possível sim ter reconhecimento com o seu trabalho.

DJ Komka na festa Traxx

Tenho acompanhando o que você tem lançado e é um material muito bom, como tem sido a aceitação das músicas? O remix do LFO ficou divino!

Fico feliz que tenha gostado! Os últimos dois anos foram muito produtivos para mim e culminou no lançamento do meu primeiro álbum “Untenable System” em agosto deste ano. No momento estou fora do estúdio, me dedicando à cozinha do meu novo projeto, mas quero em breve voltar à rotina de produção musical, até porque tenho 3 artistas incríveis para produzir.

LP do Komka
Capa do Disco

O que você imagina que vai acontecer com o mercado de festas depois da pandemia?

Creio que irá se renovar. É difícil prever o que vai acontecer daqui pra frente, se tudo vai voltar a ser como era antigamente, ou se algumas restrições irão mudar o formato das coisas. Mas acho que a pandemia manteve as pessoas em casa, pensando, e muitas idéias e novos projetos devem surgir a partir daí. Creio que a tecnologia seja melhor utilizada daqui pra frente, com todos os recursos de comunicação que as pessoas aprenderam a utilizar. Mas torço para que o contato presencial não seja comprometido, que haja uma vacina em breve e que seja definitiva, e que outra pandemia não venha na sequência, porque o calor humano faz falta e seria triste ter que estender o isolamento social. Sejamos apenas mais moderados a partir daqui, porque a felicidade não está em uma noitada. Tem muito mais pra viver nesse mundo e a música pode estar presente de diversas outras maneiras.

Você acha que em Brasília valorizamos pouco os talentos locais?

Se depender de mim, não! Risos

Foi um prazer compartilhar minha história e idéias contigo, Gui! Desejo tudo de melhor para você e sua família e agradeço imensamente tudo o que fez por Brasília e pela cena eletrônica daqui. Se não fosse por você, talvez minha história fosse bem diferente. Obrigado pelo carinho, pelo reconhecimento e espero que nos vejamos em breve, tocando juntos em algum evento como já fizemos tantas vezes. Um grande abraço!

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DJ Oblongui

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