Entrevista com Hélio Weirdo

DJ Helio Weirdo: Muitas Histórias, conexões e bagagem.

helio weirdo
Hélio Weirdo Direitos autorais: Foto: Felipe Menezes

Grande Hélio, tudo bem? É uma satisfação imensa fazer essa entrevista com você, um cara que eu já gostava do som e depois que conheci pessoalmente e mais profundamente me conectei imediatamente. Hoje vamos falar um pouco do passado, presente e futuro?

Conta um pouco mais sobre você, nasceu aqui? Como foi sua infância?

Tudo certo, Gui, a satisfação é minha! Tenho 41 anos, sou de Taguatinga e passei toda a minha infância por lá. Comecei a andar e a falar meio cedo, minha irmã me ensinou a ler aos 4 e isso me levou a entrar adiantado na 1ª série. Sempre gostei de ir pra escola. Joguei bem mal futebol um pouquinho menos pior basquete, mas já gostava de atividades coletivas. Foi uma infância boa, meus pais eram meio rígidos, mas criaram a gente de uma maneira leve.

E como era a sua relação com a música na juventude? Antes de descobrir a música eletrônica o que você escutava?

Quando era pequeno, ouvia os cantores românticos, os sambas da minha mãe e do meu pai e músicas de criança. Nelson Gonçalves, Agepe, Alcione e Balão Mágico.

Alcione

Lá pros 9 anos, comecei a me interessar por rock. Como eu era o mais novo da turma, sempre recebia uns estímulos mais acelerados na escola. Lembro que o primeiro disco de rock que escolhi foi “O Papa é Pop”, do Engenheiros do Hawaii. O disco foi uma recomendação de uma amiga, era uma droga, mas acabei ouvindo bastante. Geralmente o rock que mais ouvia era nacional. Passei pelo momento de conhecer Guns ‘n’Roses, Metallica, Queen e logo depois já começava a me identificar com coisas que minha irmã, que tem 5 anos a mais, ouvia. Já era som de rádio, meio rock, meio synthpop tipo New Order, Pet Shop Boys, A-Ha, Van Halen, Europe

New Order Weirdo

Já começava a saber das festinhas no meu setor e comecei a ir a algumas. Daí à medida em que fui reprovando na escola – sim, reprovando 😛 – fui me conectando com quem tinha a mesma idade e fui passando a ouvir o som que rolava nos programas de rádio da época, já guiados por DJs. Dancidade, Top Dance, Ritmos de Boate. Comecei a frequentar o Top Dance, que tinha as festas de camiseta em Taguá. O som era garage house, Miami bass, eurodance e electro. Em Ceilândia e Taguá, rolavam os grupos de dança, uniformizados, dançando os passinhos nas boates, nessa época conheci o Freeky e a gente montou a nossa, a Masterboy Dance.

E quando descobriu a música eletrônica? Quais foram as festas e primeiros DJs que te abriram os olhos?

O que deu uma virada no gosto foi conhecer breakbeats e garage house. DJ Trajic, DJ Icey, Armand Van Helden, e os freestyles tipo Noel, Stevie B

DJ Icey Your Love

enfim, eu já gostava de bass music. O Elyvio Blower foi o 1º DJ que ouvi tocando jungle, na Jornal FM (rádio da época). Ele acabou começando a tocar isso no baile do Top Dance, um bloquinho de meia hora porque ninguém conseguia dançar. De repente, um amigo apareceu com um CD de jungle achado no meio das promoções nas Americanas. A galera do carrão bombado de som rodava ouvindo “Inesse”, remix do Ray Keith – dava um graaave – e eu me apaixonei por esse som (consegui até achar o vinil depois).

Nessa época a gente ouvia muito o Elyvio, Luis Mãos de Fada, Xandy, Xuxa e toda a galera que tocava nos rolês de Taguá. Mas a gente sabia que estavam rolando movis com outros sons no plano e começamos a sair de Taguá também. Minha 1ª festa fora da minha bolha foi uma da Triton, na ex-fábrica da Coca-Cola no SIA. Logo depois, Freeky e eu rachamos um par de MKII e ele começou a me ensinar.

E logo quando conheceu a música eletrônica já queria ser DJ?

Cara, eu nem sonhava em ser DJ. O problema foi começar a comprar os discos. Eu ia na Soundz e comprava os discos pro Freeky, porque já trabalhava no plano e comecei a tomar gosto. Daí acabei descobrindo a Juno Records e começamos a comprar os discos dele online. Quando chegou o 1º pacote, a gente não acreditou… Aí comecei a comprar uns pra mim no meio, o 1º foi “Torn”, do Omni Trio.

Depois comprei um monte de jungle e os clássicos de house. Já treinava bastante quando o Ricco deu o empurrão e me colocou pra tocar no Space Bar, em 2003. Nessa época eu já frequentava mais o Plano Piloto que Taguá, por não ter muitas festas mais por lá. A resistência era o Laboratório e até eles vieram eventualmente pro Plano também. No começo eu ficava muito puto quando errava, ainda não conseguia olhar pra pista, então treinava que nem maluco, até aprender. O Jungle dessa época é um som onde a métrica não era muito certa, então ou você treinava, ou passava vergonha. Também assistia DJs de perto, pra tentar perceber as mixagens… daí engatei e, de 2004 pra frente, tive várias oportunidades no Laboratório do LuiJ e do Poeck. Foi onde realmente aprendi a tocar, o que me fez ganhar espaço em eventos maiores também, tipo a Love – sou muito grato aos dois.

Comecei a comprar ainda mais discos, de clássicos – de Madonna a Daft Punk –, uns technos, houses e os jungles. Já dava pra montar uns sets maiores. Lembro que tocava – em 2006/7 – de tudo um pouco no Floripa Beats, que era o projeto do Ahmed e do Brooks num restaurante. Comecei a gostar de construir sets que vinham lá de 105 BPM até chegar ao jungle. Quando chegou 2009, eu já não sentia mais o mesmo ânimo no jungle, era difícil – e caro – achar discos e trazer coisa nova. Pra não me repetir, eu virei meu som pro 4×4, mas com fidget, garage e até uns breakbeats, era tipo house pra dançar fazendo careta, cheio de grave. Aproveitei a vinda do Vangeliez da Europa e fiz ele trazer uns 50 discos pra mim. Com o tempo fui me aprofundando e com a Let’s Dance em 2010, tive que aprender a usar CDJs e entrei mais fundo no 4×4. Pra destacar alguns rolês legais nos quais toquei dessa época em Brasília: Underground Movement, que era uma festa que eu adorava e sonhava em tocar; a Love de 2007, pistão; o Cena Criolina <3, dentro do Cena Contemporânea no museu – nessa fiz um set de 5 horas, foi incrível, tirando a parte de carregar 2 cases de vinil.

Depois do sua fase de início como DJ você, como quase todo mundo aqui, teve que começar a produzir seus próprios eventos. Quais foram os seus primeiros eventos e marcas como produtor? E o primeiro sucesso?

Cara, nessa época a galera do Plano Piloto tratava a gente de Taguá meio diferente, e não num sentido muito bom… e na música eletrônica foi onde me senti mais bem recebido. Nessa época, as festas estavam começando a segmentar e não tinha muito rolê com jungle e drum & bass. Acabamos tendo que meter as caras e começamos a fazer nossas próprias festas, pra ver se chamando os outros, éramos convidados. Começamos o Podcast Bigup! no site DNB Online, que era nacional. Daí fizemos algumas festas, a melhor delas foi a Contrast vs Bigup! no Estação 10 do Parque. Era um rolê com a Rebeca Dues, uma grande amiga que hoje mora no Rio, e outro amigo, o Da Cruz Tattoo. Trouxemos o show do Kamau, foi sensacional. Logo em seguida, aconteceu a Festen., no 904. Na 2ª edição da festa, o Ahmed e o Igor Santos, que já eram amigos, me chamaram pra entrar na produção, também foi uma escola.

E a CCCP quando começou? Vocês todos já se conheciam de antes? Moravam perto? Como integraram tanta gente legal assim?

Ninguém morava perto. A gente começou a se conectar no Laboratório, Ahmed, Brooks e Neural frequentavam, e também estavam sempre dando rolê em Taguá. Nos aproximamos e viramos amigos. Do Keyler, já era próximo há uns anos, desde os tempos de fórum de drum & bass… em 2010 assumi a Let’s Dance no Velvet e chamei o Tonny e o Kleber, que conhecia há pouco tempo, pra dividirmos a residência. Tonny e eu viramos grandes amigos e somos parceiros de trabalho desde então, até montamos um projeto paralelo pra fazer festas de rock e tocar nelas, o Weird Rockers.

Me mudei pro Plano e ficou mais fácil, nos juntávamos aqui em casa pra tomar cerveja e conversar, acabamos resolvendo fazer algo produtivo. Em 2013 passamos a usar as terças pra transmitir o Podcast online e Tonny e eu passamos a fazer a Let’s Dance com o CCCP. Tivemos na crew os Daniéis Silva e Bastos, que seguiram o baile, Neural saiu… Hoje temos Gazola, Nanda e Thay, que deram um belo gás nas ideias da crew. Uia, até rimou.

Outra coisa é que e eu gostaria publicamente de pedir desculpas para você de uma parada que me arrependo amargamente. Uma festa que eu fazia com vários parceiros, que tinha o nome de Melissa e que aconteceu acredito que em 2010, teve você como nosso convidado. E era uma época que eu tinha botado pilha na galera pra te chamar. Eu devo ter sido um dos grandes entusiastas em por sem nome. Eu estava super curioso em como seria o seu som, que naquela época tava indo pra uma pegada bem groove, pitadas de house com subs bem interessantes. Eis que você começa a tocar, a galera chegando, pistinha show de bola, e depois de uns 30 min acaba a luz, cai o gerador. Desespero total, ficamos quase 1 hora sem som e luz, e quando a luz volta eu decido, erradamente, entrar logo no som. Pedi para entrar quando a luz voltasse, sem deixar você finalizar o set. Foi um desespero, eu imaginei que deveria adiantar a festa toda se não a atração que seria o MauMau, entraria tarde. Para completar a desgraça no meio do set do Mau alguém solta um spray de pimenta na festa. Você já me perdoou?

Pra mim foi um balde de água fria na hora do apagão, mas a gente sabe que merdas acontecem. Quando se produz eventos, tem que tomar decisões e pronto. Já tá superado, lição aprendida e minha admiração pelo seu trabalho continua, não tem o que perdoar. Só ter sido convidado, já me fez feliz.

Eu sei que foi a custa de muito trabalho sério e dedicação que você conseguiu vários resultados importantes, como a consolidação de projetos, ter emplacado várias festas na cidade. Mas diz aí, como foi sair de um DJ novato para um dos caras que mais apareceu na cena da cidade nos últimos 10 anos? A receita parece fácil, mas não basta ter carisma e ser um bom DJ ne?

Quando entrei de cabeça no rolê, eu achava que ia ser jornalista, mas não consegui ficar só observando. Quem não gosta de estar entre gente que pensa parecido, né? O som que eu gosto não era música popular no Brasil e fazer esse tipo de gênero funcionar levava tempo e trabalho. Eu sempre quis que as pessoas pudessem ouvir outras coisas, mostrar lados diferentes. Nos últimos anos, me envolvi em tudo o que podia e conseguia, algumas iniciativas não deram certo, mas algumas funcionaram bem. Bolha, CCCP, Vapø_r… Só quero poder devolver algo pro futuro, incentivar, como fui incentivado, e que tenhamos aí mais umas boas décadas de festas e som na cidade, pra eu ter onde dançar daqui a 20 anos.

Sei que errei bastante, pra aprender, e ainda vou errar, mas tirei boas lições desse tempo na noite. Acho que a receita é se arriscar um pouco, se envolver de verdade, parar de fazer coisas por “paixão” e entender como é fazer isso de forma séria, profissional, mas com amor. Pra mim, Amor > Paixão. Criar conexões reais, trabalhar com os que acreditam e pensam de forma parecida também conta muito, tem sempre alguém te puxando pra cima e te ajudando. Se não fosse minha crew, com certeza não teria conquistado metade das realizações desses últimos anos.

Nem tudo são flores nessa vida, quais são as maiores dificuldades para você em tocar a vida de produtor e DJ?

Por aqui pelo cerrado, principalmente grana. Não tem muito o que falar, quando você precisa pagar seu aluguel, suas contas e passa a ouvir que a arte não importa, tem que tocar por cachês que não pagam nem as músicas que você compra… como produtor de eventos, nos últimos 3 anos, vi que pra mim não dava pra viver só de festas de música eletrônica e tô trabalhando em outra área bem diferente. A grana da cultura não chega na música eletrônica por aqui, como é em SP. Então você precisa se virar e ainda dar conta de todo o processo – viver que chama. Talvez isso seja também consequência do jeito que levamos as coisas por aqui, de guiar com o coração, esquecendo que, ainda que seja arte, deve existir um mercado de trabalho por trás, que merece respeito e precisa ser remunerado. Pra que produção musical, de eventos ou a discotecagem parem de ser tratadas como freela e o ciclo evoluir.

Como você vê o governo querendo fazer um projeto como esse do SCS?

O projeto das residências no Setor Comercial Sul? Brasília foi desenvolvida pra ser excludente, pra preservar o avião e deixar os pobres de fora. Ver a gentrificação chegar ao centro da cidade é triste, mas não surpreende. É a história se repetindo, tirando pessoas em situação de vulnerabilidade da zona central… Pra quem vai esse espaço? Creio que seja tarde demais pra incluir moradias no centro. No surgimento de BSB, quem construiu de fato a capital, teve que ir morar na periferia por “não ter espaço” suficiente dentro do avião. E agora? Serão moradias populares? Acho improvável, apesar de torcer pra estar errado.

Como tem sido a vida de produtor musical, sente falta tempo também para conseguir se dedicar?

Não tenho produzido nada nos últimos meses, mas no começo do ano tive um momento pessoal bem ruim e isso resultou em 8 faixas, o surto. Mais que tinha feito a vida toda. Tem até uma delas saindo, pelo Zoowork de SP, o selo que sempre acreditou no meu trabalho. Agora, trabalhando 8 horas diárias, quando chego em casa não tenho muita paciência pra abrir o computador. Quem sabe quando me organizar melhor?

Quais DJs da nova geração você acha que devemos ficar atentos?

Anrms, FAA, Giograng, Liz V, Preta, R2Pot, Slow… tem Keylero, Leriss e Matheus Cruz tocando há um pouco mais de tempo… muita gente nova que apareceu trazendo sets incríveis, produzindo uns sons avançados e fazendo um corre bem legal.

Você acha que em Brasília valoriza-se pouco os talentos locais?

O “negócio”, a noite, não muito. Até hoje você luta pra receber um cache razoável. Se você depende da discotecagem, por exemplo, você fica entre “não aceito tocar por 100 conto” e o “e aquele boleto?”. Tenho o sério defeito de comprar músicas e tem cachê que não cobre nem isso. Entendo o lado do produtor também, fica muito difícil fechar planilha só com bar e oferecer uma experiência além da música. Desde que eu me entendo na cena de Brasília, sei que o único problema que nunca sumiu foi a dificuldade de ter público pagante.

Na noite de música eletrônica daqui, sempre achei que quem faz o milagre é o santo de casa. É muito bom ter DJs de outros lugares fazendo som em BSB, mostrando algo diferente, mas nós aprendemos muito bem a agradar às nossas pistas. Creio que o período pós-pandemia vai trazer uma valorização natural ainda maior dos artistas locais e tenho fé que o público vai responder positivamente a essa mudança. Enfim, acho a galera daqui bem foda, todo mundo aprende e se adapta rápido, entende a pista da cidade. E acho que a cidade tá começando a reconhecer esse esforço. Se você gosta de um DJ ou projeto, dá pra apoiar até de graça.

Qual a melhor coisa do momento que estávamos vivendo antes da pandemia, e será que vamos conseguir recuperar aquele estágio rapidamente?

Acho que as festas tinham entrado em um caminho de volta às origens, voltando a ser espaços onde as pessoas podiam ser elas mesmas. Imagino que esse seja o ponto de partida. Retomar o que era antes, vai ser meio complicado.

E o que será da cena eletrônica pós pandemia?

Não sou uma pessoa de criar muitas expectativas e sei que pra quem vive de eventos já é um impacto sem fim. Como também não sou muito bom de previsões, vou falar o que eu espero: que Brasília seja vista como o centro de música eletrônica que é. Muito se fala de DJ gringo que vem tocar e não leva ninguém, mas isso acontece dentro do país mesmo. Quero ver uma movimentação mais diversa de artistas. O Brasil tem potencial pra ferver noites e DJs de todas as regiões em um movimento bem maior, mas isso vai depender de como os núcleos vão se organizar. Confesso que tenho um pouco de medo dos momentos iniciais dessa reconstrução porque todo mundo doido por uma pistinha “das antigas”, que nem eu. Como segura o fogo?

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DJ Oblongui

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