Entrevista com Hopper por DJ Oblongui

DJ Hopper: um bate papo sobre carreira, sobre a cena, sobre produção musical.

DJ Hopper
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Hopper, tudo bem? Primeiro que é uma satisfação fazer essa entrevista com você, parceiro de tantos anos e tantos projetos. Pra mim você é um dos caras da geração logo em sequência da minha que chegou mais longe, e ainda conseguiu pegar o gosto de produzir. Hoje vamos falar um pouco disso tudo.

Conta um pouco sua história, como foi sua juventude em Brasília, principalmente o período anterior da música eletrônica? Você foi uma criança/adolescente feliz na cidade?

Meu pais separaram muito cedo e eu cheguei em Brasília, para morar, de fato, quando ainda era adolescente. Eu já havia estado na cidade algumas vezes porque uma tia minha morava aqui. Eu gostava muito passar férias por aqui. Muito mais que no Rio ou qualquer outra cidade do Nordeste, Sul ou Sudeste. Me sentia parte do lugar. Então, quando vim morar de vez, eu já tinha uma atração pela cidade. Já sabia andar em todo lugar por aqui. Já tinha uma ligação grande com música, principalmente rock, e a cidade já possuía essa áurea rockeira que encantava qualquer adolescente rebelde (com ou sem causa). Estudei em muitos colégios, causei confusão em vários, criei bandas de rock com amigos de escola, fui em milhares de shows e fiz tantos outros com minhas bandas indie rock (ou rock alternativo, como também chamavam, na época). Enfim, fiz minha parte como rockeiro adotado pela cidade que tanto amo. Foi uma fase incrível e muito divertida da minha vida.

E depois da juventude no Rock, com banda e tudo, o que te levou a despertar para a música eletrônica? Como foi a experiência para você de vivenciar o Wlöd e a MiQRa?

Eu sempre fui interessado em bandas diferentes, sem sons diferentes, em algo que tivesse um aspecto inovador, sempre de vanguarda. Não curtia rock de estádio, não era fã de grandes bandas consagradas ou medalhões do rock. Então, ao mesmo tempo que eu curtia rock alternativo, eu me interessava cada vez mais por produtores e DJs de música eletrônica. Para mim não existia a fronteira entre rock e eletrônica. Eu sempre dizia que gostava de música e que não me importava se ela era feita com guitarra, baixo e bateria ou máquinas como sintetizadores e drum machines. Já havia essa gosto por Kraftwerk, Can, New Order, Depeche Mode, Sisters of Mercy, Nine Incn Mails, Ministry, Nitzer Ebb, entre outros. A partir desse interesse por sons eletrônicos, foi natural que eu começasse a frequentar as primeiras festas eletrônicas na cidade e participar do nascimento dos primeiros clubs da cidade, além das primeiras raves, claro.

Quando começou a gostar de música eletrônica você imediatamente pensou em ser DJ? Quando Despertou para a discotecagem? Quem foram os DJs que você viu no início que te levaram a se interessar por isso?

Com o fim da minha banda de indie rock, Low Dream, em 1997, eu decidi que queria mergulhar de vez no meio eletrônico. Por ser músico, podia ver na figura do DJ alguém que transmitia música para as pessoas nas pistas, assim como um músico faz isso nos shows, nos palcos. Em 1998 embarquei para Londres pela primeira vez e lá pude viver, durante um tempo, a realidade dos clubs, festas, festivais, raves, lojas, ruas e pubs, etc, da época. Eu já tinha 2 pick ups (toca-discos) e mixer, no Brasil, então trouxe dois cases grandes lotados de discos de vinil com muito techno, house, electro, jungle, IDM, progressive, hardcore, acid house, etc. Vi muitos DJs tocando, principalmente no The End Club, como Richie Hawtin, Mr. C, Layo & Bushwacka, Goldie, Terry Francis, Autechre, Chemical Brothers, Underworld e milhares de outros artistas incríveis. Mas posso dizer que meu interesse e o que me fez realmente pensar em me tornar DJ foram Richie Hawtin (Platikman, F.U.S.E, Robotman) e Aphex Twin. São artistas maravilhosos que continuam absolutos até hoje, produzindo e criando sempre com a mente voltada para sons de vanguarda.

Como foi a aceitação dos seus amigos rockeiros com você indo virar DJ de música eletrônica?

Obviamente não foi muito bem aceito por eles. Eu tinha uma banda relativamente famosa por aqui. Tinha lançado dois CDs muito elogiados, tinha elogios até do Renato Russo, da Legião Urbana. Então não foi algo fácil de aceitar. Quando encerrei minha história com a banda, eu não deixei de gostar de rock. Só não queria mais fazer aquilo na minha vida. Foi o fim de um ciclo e, obviamente, início de outro em que estou até hoje. Tenho mais tempo como DJ do que como integrante de todas as bandas que tive, imaginárias ou não.

Muitos amigos começaram a ir comigo para as festas, na época. Com o tempo, começaram a curtir bastante e me ver como parte daquilo ali. Não foi algo tão traumático assim. Hoje eles me vêem mais como DJ Hopper do que como o Giulliano Fernandes da Low Dream, eu acho (risos).

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O que você lembra das primeiras FUSE? Teve o momento com o MauMau na churrascaria do lago, a época do quiosque na APCEF? O que você percebe de diferente das FUSE que fizemos recentemente?

As primeiras festas FUSE marcaram uma época para muitas pessoas. Eram festas incríveis por causa da vibe das pessoas com a música. Foram justamente nesse período de descoberta da música eletrônica para muita gente, entre 1999/2001. As pessoas se preparavam para aquele ritual, aquele momento de celebração na pista com os amigos e com a música. Naqueles fins de semana de festa, a cidade sabia que uma festa diferente de todas as outras estava acontecendo no bangalô da APCEF, na beira do Lago Paranoá. Teve essa grande com o Mau Mau também, na Churrascaria do Lago, que foi histórica mesmo. O que vejo de diferente nas 3 edições que fizemos no ano passado é que a FUSE se tornou urbana, com público novo e com foco sonoro no techno e não tanto na house e no tech house daquela época. Óbvio que a festa foi atualizada, afinal foram muitos anos desde a última edição, no início dos anos 2000.

Brasília viveu várias e diferentes fases na noite nos últimos 20, 25 anos. Tivemos o início com os dois clubs muito conceituais, Wlöd e MiQRa, depois as festas afastadas como a Grande Tenda, e outras no Park Way, a época dos grandes Isnt e The Six, a época do drum n bass, depois a fase gloriosa do 5uinto, depois o momento dos grandes festivais e hoje vivemos a época dos coletivos undergrounds. O que você acha que essas fases trouxeram de positivo para a consolidação da música na cidade?

Acredito que o fator positivo foi sempre manter a música eletrônica viva e fazer a renovação dos públicos nas pistas. Sempre vão existir as mudanças, as fases, os ciclos. Isso acontece em todo o mundo. Isso tudo faz parte de uma história que lá na frente vai ser lembrada quando as pessoas estiverem imersas em outra história. Agora os coletivos são fortes em várias cidades do Brasil. Amanhã pode ser outra coisa. É a renovação do ciclo. Eles terão feito a história com a razão da existência deles. Precisamos sempre, na dita cena, de mais pessoas pensantes para somar e construir bases mais sólidas para o que vem pela frente. É a evolução constante.

Você certamente foi um dos caras que mais viajou tocando fora da cidade, viu bastante DJs de outras realidades tocando, você acha que temos um som diferente em Brasília? Mesmo que possamos tocar estilos semelhantes, mas você vê uma cara nos DJs locais?

Cada DJ precisa construir uma personalidade própria, apesar de estar tocando produções de outro artista (que fez a música). Os DJs que se destacam são os que conseguem criar com mais clareza essa personificação sonora.  Eu acredito que é possível sim ter essa coerência no trabalho. Criar uma marca sonora nos DJ sets. Muitas vezes conseguimos perceber que é um DJ tocando mesmo sem olhar para o palco. Essa identidade pode ser percebida em vários DJs locais.

Você deve ter pensado em sair de Brasília muitas vezes, ou não? O que te fez ou faz ficar na cidade?

Pensei muitas vezes. Ensaiei muitas vezes essa mudança de cidade. Talvez tivesse dado muito certo. Talvez não. Chegou um momento que eu não vi essa necessidade de morar em outra cidade, já que podia me deslocar daqui facilmente para qualquer outra cidade do país. Apesar de amar São Paulo também, não conseguia ver minha vida lá. Sentiria muita falta de Brasília, da minha família, dos meus amigos. Outra coisa é que Brasília já tinha uma cena pulsante e estabelecida com o 5uinto e outros núcleos de festas, sempre fazendo eventos e trazendo grandes nomes nacionais e internacionais. Então, pra que sair daqui? Eu criei meu espaço aqui. Não havia mais necessidade de morar longe das pessoas e da pista que mais amo. Então fiquei… E não me arrependo nada disso.

E a produção musical, tenho ouvido seus lançamentos e estão muito bons. Você acredita que o Brasil e Brasília podem entrar nesse mercado?

Sim. Muito obrigado. Acredito que esse é o presente/futuro para a música eletrônica. Hoje é necessário produzir e lançar tracks e remixes para serem tocados por DJs daqui e do mundo todo.  Eu e meu amigo, também DJ, Carlos Pires (aqui de Brasília também) criamos uma label aqui para lançar artistas daqui, do Brasil e do mundo, com essa visão de necessidade atual. Produzimos várias tracks e remixes para nossa label Mind Connector e várias outras labels nacionais e internacionais. Com essa pandemia, nosso trabalho ficou bastante prejudicado, claro. Tivemos que nos adaptar completamente a isso para não parar de acontecer. Brasilia e o Brasil, como um todo, já estão completamente inseridos nesse mercado. Há aos produtores locais e nacionais lançam tracks e remixes no mercado mundial e se destacam bastante. Posso citar alguns nomes aqui como Renato Cohen, Gui Boratto, Digitaria (TERR), ANNA, Webbha, entre muitos outros. Em Brasília já temos bons produtores há tempos como o próprio Carlos Pires, ˆL_, Beep Dee, Komka e uma molecada nova ai que vem com gás total para levantar ainda mais o que é feito por aqui.

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Acha que o Brasil como um todo, em relação as produções musicais, tem conseguido respeito no mercado internacional?

Sim. Vejo muitos artistas nacionais assinando remixes de artistas internacionais. Isso é o artista internacional que contrata, que quer remix do artista nacional, ou seja, mostra que isso já está acontecendo bastante.

O que falta para os DJs locais tocarem mais músicas locais?

Talvez perderem o preconceito. Outro dia eu vi um live do Ramiro Galas, com o projeto dele chamado Meduna. Fiquei encantando com aquilo. Foi bem simples, mas emocionante. Eu não conhecia aquele trabalho dele, até porque é novo mesmo. Fiquei imaginando aquelas músicas numa pista. Fiquei pensando em tocá-las para todo mundo ouvir e dançar. Pensei em lançar algumas daquelas tracks pela minha label. Até falei com ele no dia. Enfim, pra mim se a música é boa e emociona, então ela precisa ser tocar as pessoas. Não me importa se ela é feita aqui ou no Uzbequistão. A vantagem da música eletrônica sobre rock é, muitas vezes, não ter a barreira da língua. Mas esse “preconceito” não deve durar tanto tempo assim. Acredito que em breve ouviremos bem mais DJs locais tocando tracks de produtores locais nos sets. Faz parte do processo natural.

Quais DJs da nova geração da cidade você acha que as pessoas devem ficar atentas?

Essa pergunta é difícil de responder agora, em plena pandemia. Esse ano não vi praticamente nada com novos nomes. Sei que existe uma molecada nova, cheia de gás para fazer acontecer. Fico muito feliz e desejo muito que esses artistas se estabeleçam e façam um bom trabalho por eles,  pelos parceiros e pela cidade.

E produtores nacionais, o que você tem achado das produções nacionais? E as locais?

Já faz tempo que tenho achado muita coisa boa entre os produtores nacionais como Gui Boratto, Victor Ruiz, ANNA, Blancah, Renato Cohen, TERR, L_cio, Sartorian, Hendrix Garcia, Toigo, Chappier, Mila Journée, Binaryh, Paulo Foltz, Marcal, entre muitos outros. Por aqui, tenho acompanhado o trabalho do Meduna,  Brooks, Weirdo, PH Muniz, Dariuz, ˆL_, Rassan, Komka, Beep Dee, entre outros.

O que você imagina que vai acontecer com o mercado de festas depois da pandemia?

Difícil dizer isso. As festas já estão voltando a acontecer. Algumas ilegais e outras em esquemas menores, com essas restrições ou não. Realmente não sei. Mas acho que depois da vacina, aplicada em todo mundo, as pessoas irão se comportar como se nada tivesse acontecido durante esse período. A sensação de segurança será maior, então acredito que as pessoas naturalmente estarão se achando imunes ao vírus (e realmente podem estar, inclusive). Já vejo muita gente, através das redes sociais, se comportando e indo em festas (clandestinas ou não) como se estivessem imunes. Vejo alguns colegas DJs se comportando assim, inclusive. É aquilo. Cada um sabe o que faz ou não pelo próprio bem e dos outros. 

Você acha que em Brasília valoriza-se pouco os talentos locais?

Acho que não. Nunca me senti desprezado diante de um artista nacional ou internacional aqui. Muito pelo contrário. Sempre tive respeito e admiração por parte dos meus contratantes, do público nas pistas e dos colegas DJs daqui ou de fora. Não sei se isso só ocorre somente comigo, mas realmente posso dizer que sou feliz pela consideração, respeito e admiração de todos pelo meu trabalho e pela minha pessoa. Por isso também tenho por todos. É isso.

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