Isa49: no dia da mulher comenta sobre seu passado e seu presente

Isa49: no dia da mulher comenta sobre seu passado e seu presente

musica eletronica brasilia Isa49

Isabella Freitas é a DJ Isa49, ela é um novo talento da cidade que ta mostrando sensibilidade e feeling para conduzir as pista de dança da vida. Com uma boa bagagem musical, ela, mesmo no começo de carreira, mostra que já está garantindo seu lugar na cidade.

TUNTISTUN: Oi Isa49 para mim uma alegria enorme fazer essa entrevista com você. Muita gente tem notado que você tem talento e sensibilidade para seguir em frente na carreira de DJ, e eu, claro, também percebo isso, vamos conversar um pouco disso tudo?

Com certeza! E a alegria é toda minha. Venho acompanhando o seu trabalho incansável com o objetivo de documentar e preservar a memória da cena eletrônica da capital e acho incrível. Muito carinho e respeito por você e todo o caminho que vem trilhando até aqui.

TUNTISTUN: Você nasceu aqui em Brasília mesmo? Cresceu onde? Como foi sua infância?

Nasci aqui mesmo, cresci em Taguatinga com meus pais e meu irmão. Tive uma infância feliz e tranquila. Brincava na rua até o começo da minha pré adolescência. Depois me tornei mais introspectiva. Era meio nerd, muito tímida e passava grande parte do tempo no meu quarto ouvindo música, brincando de lego e escrevendo nos meus diários. Uma grande adepta da solitude desde criança.

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TUNTISTUN: Sempre gostou de música? O que escutava antes de música eletrônica?

Sempre! Meu grande companheiro foi um Sony FH-G50, que ganhei com 10 anos ao passar de série na escola. Hoje consigo entender porque cresci tão exigente com qualidade de som em geral rsrs. Basicamente gastava a minha mesada com CD’s, DVD’s e revistas da Jennifer Lopez, que eu era muito fã (até hoje). Celular eu sempre escolhia os da Sony Ericsson por causa da qualidade sonora e o tipo de fone de ouvido. Adorava gravar fitas K7 e também me apossei do Walkman Sony Sports da minha mãe, o amarelinho, que tenho até hoje. Os CD’s e DVD’s também tenho todos ainda, tamanho o cuidado e respeito que tenho por eles. Cresci com meu pai ouvindo Jovem Pan a todo o volume, principalmente aos domingos quando ele passava a tarde lavando o carro. Ficava atenta ao programa que mostrava o que estava tocando nas pistas do mundo e detestava não ter como ouvir depois. MTV foi uma grande influenciadora também, adorava o Disk MTV e os Top 10. Finalmente respondendo a sua pergunta, quando criança escutava muito Kid Abelha (desde quando era Abóboras Selvagens), Marisa Monte, Roupa Nova, Paralamas do Sucesso, Skank, Madonna, Cindy Lauper, Roxette, Phil Collins, Sade, Laura Pausini, The Corrs, Dido, Jennifer Lopez. Já mais adolescente vieram as divas pop Britney Spears, Cristina Aguilera, Rihanna, Lady Gaga, Destiny’s Child. Teve também a febre Evanescence, que me deu forças pra continuar a viver depois do sofrimento que foi a minha primeira (e pior) desilusão amorosa rsrs. Ah, eu fui evangélica dos 8 aos 16, então rolou muuuito gospel também.

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TUNTISTUN: E como e quando descobriu a música eletrônica?

Bom, até agora foram em três fases. A fase eurodance: veio ao ouvir o que tocava na Jovem Pan e nas trilhas sonoras internacionais das novelas da Globo. Lasgo, Ian van Dahl, Cascada, Alice Deejay, Fragma eram os favoritos. Escutei até enjoar (e nunca enjoei): Easy love (Lady), Reason (Ian van Dahl), Pray (Lasgo),”Mr. Vain” (Culture Beat), “What Is Love”(Haddaway), “Rhythm of the Night” (Corona) e “Rhythm Is a Dancer” ( Snap!). Até hoje quando sinto preguiça de ir pra academia é só colocar a playlist de eurodance e a energia vem rs!

Easy love (Lady)
Reason (Ian van Dahl)
Pray (Lasgo)

A fase colorida: a segunda fase veio quando assumi a minha orientação sexual e senti necessidade de pertencer a uma tribo e me divertir de forma segura (em festa hétero era impossível). Passei a frequentar as boates LGBT de Brasília, Blue Space, Victoria Haus e Oficina com o meu melhor amigo Alex, que conheci na faculdade. Me apaixonei pelo tribal house. Em uma bela noite, em 2008, a atração era a Lorena Simpson e eu instantaneamente virei fã. Somos amigas até hoje e ela continua maravilhosa, sempre se reinventando. É um ícone brasileiro, sem dúvidas. Eu a seguia nas turnês por SP, Rio, Goiânia e acabei fazendo muitas amizades e conhecendo outras boates como a The Week e a D!sel. Foi a época em que começaram as pesquisas musicais intensas. Me apaixonei pelo som do Offer Nissim (que vinha ao Brasil uma vez ao ano apenas e era uma loucura), Yinon Yahel e Peter Rauhofer, com batidas intensas e vocais impecáveis de Meital de Razon, Maya Simantov, Deborah Cox, Dana International. Offer Nissim até hoje tira meu mau humor instantaneamente!

A procura por ritmos intensos e diferentes me levou a conhecer outros gêneros como trance e eletro. E eu sempre priorizava ir à São Paulo, porque tinha maior facilidade em me conectar com as pessoas de lá do que com as daqui de Brasília. Festivais como Xxxperience, Kaballah, Tribe e as passagens do Armin Van Buuren pelo Brasil, sempre impecáveis, levavam todo o meu pagamento dos primeiros estágios e empregos!

A fase techno/underground: um belo dia, limpando a casa, a playlist aleatória do Youtube me levou para uma apresentação do Solomun na Tomorrowland da Bélgica. Eu me apaixonei por aquele som, e na sequência comecei a pesquisar e ouvir muito house progressivo e techno. Descobri a ANNA e a música Hidden Beauties fez a coisa ficar séria. Nesse período, em 2018, eu terminei um casamento de 6 anos e passei a procurar lugares novos para frequentar em BSB. Num final de semana, caí na festa Balada em Tempos de Crise, no outro, fui parar na TRAxX. Daí veio 5uinto, Sintra, Sujo, Crazy Cake. Eu via todas aquelas pessoas apaixonadas por música, todos aqueles estilos e personalidades diferentes aproveitando ao máximo cada segundo. Foi uma fase mágica! Eu tinha acabado de descobrir uma nova realidade e passei dois anos intensos saindo TODOS os finais de semana. Na pista eu esquecia do mundo e vivia apenas aquele momento. O meu ascendente em áries colocou meu sol capricorniano no chinelo, pois fiz dívidas horrorosas viajando (sozinha na maioria das vezes), para conhecer Warung, Noon, Time Warp, DGTL, Dyinamic Festival. Não me arrependo de nada (Só de não ter ido ao Dekmantel rs). Parecia até que estava prevendo essa pandemia e tinha pressa de viver aquilo tudo.

Enfim, me sinto privilegiada e grata por ter vivido a época do vinil, CD, mp3 (Ares, emule e Limewire, lembram?!) e a facilidade do Spotify. Cada uma dessas fases se complementam e fazem parte do que sou hoje. Tenho grande orgulho em dizer que meu passado e presente são amigos inseparáveis.

TUNTISTUN: E o interesse como DJ, quando veio? E por que?

Uma bela noite no 5uinto bar, depois de tomar alguns drinks e ir pro “front”, como sempre fazia, comentei com o DJ Hopper já no final do set dele que tinha curiosidade de aprender a “mexer no som”. Foi exatamente esse o termo que usei e ele, surpreso, disse: Como assim você não sabe mixar?! Fui embora pra casa e aquilo não saía da minha cabeça. Na semana seguinte eu comecei o curso de discotecagem na Technicals. No começo achei difícil, mas ao entender a lógica de como uma música é construída e acertar a primeira mixagem, veio uma felicidade e sensação de plenitude indescritíveis. Eu estava livre para começar a criar o que eu quisesse! Só não sei até hoje como consegui vencer a timidez e me apresentar em público.

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TUNTISTUN: Mostra pra gente duas músicas que te pegaram nessa sua fase inicial de descoberta da música eletrônica?

Flow & Zeo – Maresia

Analog Kitchen – Nocturnal Identities

TUNTISTUN: Quais primeiros DJs locais que você ficou atenta?

Anachuri, Carlos Ferrari, Carlos Pires, Elisio Romero, Hopper, Oblongui, Suhkjeet, Vivi Seixas. Não posso deixar de citar mais alguns brasileiros(as) que me influenciaram MUITO no comecinho, que foram ANNA, Blancah, Ellie Ka, Paulo Foltz e Flow & Zeo.

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TUNTISTUN: E DJs internacionais que você admira, fale de alguns pra gente?

Miss Melera (Amsterdam), VNTM (Amsterdam), Or:la (Irlanda), Ellen Allien (Alemanha), Aurora Halal (EUA).

TUNTISTUN: E de Brasília, o que você acha da pista e da cena da nossa cidade?

Gosto da diversidade e intensidade das festas. Foi onde eu descobri uma Isa (ou seriam 49?) que nem imaginava que pudesse existir, livre para dançar, curtir e me conectar com muita gente bacana. Fiz amizades que levarei para o resto da vida, sem dúvidas.

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TUNTISTUN: E DJs que estão iniciando, fala pra gente quais você tem curtido?

Dessas amizades que fiz na pista, Allice_D, Key (Kesley), Régia e Gabrich também aprenderam a tocar e vem fazendo um belo trabalho, com muita dedicação, versatilidade e boa pesquisa.

TUNTISTUN: Você como uma DJ que está iniciando nesse mundo, o que você acha que os DJs mais experientes poderiam fazer para estreitar os laços como os mais novos?

É fundamental que tenham interesse em conhecer quem são essas pessoas, sem pré julgamentos, sabe? Abrir um canal de diálogo, assim como você, Gui, procura fazer. Vejo alguns DJs talentosos presos ao passado, como se apenas a música que tocavam na época fosse boa o suficiente. Acho que é uma pena essa limitação, por que a mágica da música é justamente essa característica linda de unir gerações e se reinventar. Tem muita gente incrível e cheia de disposição para somar na cena e a renovação é inevitável. Então, se o passado e o presente puderem se complementar, a cena só tem a ganhar. Eu tenho um respeito enorme por todos que vieram antes de mim e acho ótimo quando tenho a liberdade de compartilhar ideias e, porque não, música? Eu amo fazer networking, mas por incrível que pareça Brasília é o local em que mais sinto dificuldade quanto a isso.

Algo que essa pandemia global nos mostrou é que, mesmo tendo as suas tracks favoritas tocando bem alto na sala de casa, o que realmente nos completa é a energia da pista e a conexão com o outro, que muitas vezes se faz presente apenas com um abraço, olhar ou sorriso. Que possamos nos lembrar disso quando for possível nos reunirmos novamente e valorizar essa troca, priorizando sempre a sensibilidade e a simplicidade.

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TUNTISTUN: Para fechar mostra mais umas 3 músicas que você tem escutado recentemente?

O techno melódico faz parte do meu dia a dia. Sou fã de carteirinha da Mila Journée (BR). Nossa conexão é muito especial e em dezembro do ano passado ela batizou uma track com o nome “forty-nine” em minha homenagem. Pensa na emoção! Zaria (EUA) é outra produtora talentosíssima que admiro muito e a track “Eudaimonia” vive no replay. Os graves são simplesmente perfeitos! Lauren Mia (EUA) também é uma das minhas musas inspiradoras e “Gypsy” está sempre aparecendo nas playlists.

Sou amante do feminino e das batidas marcantes, independente do subgênero. A batida sempre me faz sentir viva, mas se tiver batida e um vocal feminino eu estou no paraíso!

Forty-nine · Mila Journée

Zaria – Eudaimonia (Original Mix)

Gypsy · Lauren Mia

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DJ Oblongui

1 comentário em “Isa49: no dia da mulher comenta sobre seu passado e seu presente”

  1. Maria Aparecida de Freitas

    Obrigada TUNTISTUN, pela oportunidade! Muito bacana essa iniciativa em mostrar os novos talentos.
    Eu como mãe da Isa, fico muito feliz e desejo a todas as mulheres envolvidas neste projeto, todo o sucesso do mundo.
    Parabéns a todas as mulheres!
    Abraço!

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