Entrevista com Kaká Guimarães

Kaká fala como começou a trabalhar na noite e sua ligação com o centro da cidade.

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TUNTISTUN: Tudo bem? É uma alegria imensa fazer essa entrevista com você, o verdadeiro Queridão do Rolê. Hoje vamos falar um pouco dessa saga?

KAKA GUIMARAES: Hahaha, o prazer é meu, essa onda do queridão pegou né, só têm querides!

TTT: Me conta um pouco de você, como foi sua infância, nasceu aqui mesmo, como foi esse período inicial?

KG: Eu nasci no RJ, mas vim pra cá bem cedo, meu pai veio trabalhar no governo federal e por aqui ficamos. Infância tranquila, jogando bete e pique-bandeira. Foi uma fase bacana, com 10 anos eu já tinha tomado uns 30 pontos na cabeça e no rosto(risos).

TTT: Sempre foi ligado em música?

KG: Sim, muito! Meu pai tinha uma coleção de vinis muito grande, com mais de 20 mil discos, muito jazz, MPB, samba antigo. Infelizmente a casa era de madeira e pegou fogo, não sobrou nada. Mas o gosto pela música ficou, lembro que passávamos as noites e os fins de semana ouvindo de Billie Holiday à Cartola. Um grande amigo do meu pai era curador do Free Jazz Festival, sempre chegava muita coisa boa lá em casa.

Pra mim tudo mudou com o surgimento do Napster, antes disso era bem difícil comprar música, tinha que investir muita grana. Quanto dinheiro não deixamos nas Discotecas 2001 e na Redley Records?!

TTT: E quando decidiu produzir eventos?

KG:: Cara, isso é até engraçado, mas minha primeira festa foi na 4ª série. Eu convidava a galera da escola e tocava com 2 sons “3 em 1”. Com o tempo a coisa foi ficando sofisticada e comecei a alugar o som, as luzes, fumaça, strobo… Fiquei nessa até a 8ª série.

Depois só voltei a produzir com 18 anos, já na faculdade. Organizei um churrasco de calourada na mansão Rollemberg, com salto de bungee jump a 10 reais. Nessa mesma época conheci o Elísio Romero que fazia umas festas na Capital em Taguatinga e comecei ajudar ele a divulgar no CEUB.

Acabei conhecendo o Brumana, também lá no CEUB, ele já fazia uns shows com a galera da Tribal (que foram empresários do Nativus), o Rodrigo’s Party também fazia umas festas alternativas, essa galera. Nessa época o Brumana me apresentou o Márcio Salomão como RP do CEUB, aí a gente organizou uns eventos lá no Tequila Rock na Copa do Mundo de 98. O Gilberto socado de gente, aquela confusão horrível, foi a primeira vez que ganhei um dinheiro considerável fazendo festa.

Aí foi rolando naturalmente. Fiquei sabendo que iam abrir um club onde era a antiga Scaramouche no Gilbertinho e fui lá falar com o dono. Acabei levando muitas comissões de formatura pra fazer festa de curso lá, foi onde comecei de verdade a profissionalizar meu rolê como produtor de eventos. Acabei sendo produtor de bloco na Micarecandanga nessa época, o Cocobambu. Com o tempo fui deixando esse cenário mais comercial e migrando pra uma coisa mais alternativa, até chegar no Conic (risos).

TTT: E quando descobriu a música eletrônica?

KG: Em 98 eu conheci o Elyvio Blower, ele queria trazer uns DJs gringos pra inauguração da Metrópole (onde era a Scaramouche na QI 11 do lago sul), acabei ajudando ele a convencer os donos. Mas não deu muito certo, o público ficou meio assustado, não tinha muito a ver com a galera. Além de produzir lá, eu fazia umas festas na casa do meu pai no Lago Sul. Numa dessas foi parar o Anderson Noise tocando lá e a vizinha de pijama atrás dele querendo desligar o som. Foi nesses tempos que eu conheci o JVC e começamos a fazer uma quinta-feira de house lá no Gilbertinho. Numa dessas, ele tava com contato duns DJs da Tresor de Berlin que tinham tocado na Love Parade. E aí surgiu a ideia da Love, ao invés de colocar os caras pra tocar no club, alugamos um trio elétrico e colocamos na casa do Zizica lá no Park Way.

TTT: E quando e como decidiu ser DJ?

KG: Cara, isso se deu de várias formas em diferentes épocas.

Quando comecei a fazer as festas em 98 eu tinha muito CD, acabei aprendendo a mexer na Denon, na CDJ 100, volta e meia ia lá colocar músicas também, era uma época que as boates tocavam meio que de tudo. Você já sabia a sequência de músicas que cada DJ tocava, era sempre a mesma receita. Acabou que comecei a curtir tocar alguns horários da noite. Mas não era voltado pro eletrônico, eu comecei tocando rock e pop.

Só lá pra 2003 que eu comecei a baixar muita música de psytrance e de repente eu tava lá abrindo as minhas festas ou cobrindo os horários ruins pra economizar cachê.

Em 2011 eu resolvi fazer um curso lá na escola do Foka, com ele o com o Icy, pra aprender a mexer no Ableton, queria fazer uns mashups, aprender um pouco mais.

Nessa época eu aluguei uma casa no Lago Norte e comecei a fazer muita festa lá, muito after na piscina, curtia tocar um som mais house pra ouvir de dia, foi quando conheci a Babi (que depois me apresentou o Igor) e a partir daí fazíamos festas na minha casa, na casa dela e naturalmente surgiu a Balada em Tempos de Crise em 2015. De forma despretensiosa a gente começou a tocar as músicas que a gente gostava e começou a agradar a galera que colava. Foi aí que comecei a levar mais a sério, tava afim de tocar coisas que não tocavam em nenhuma outra festa. As festas de música eletrônica estavam mais voltadas pro techno, pra um som mais pesado, eu procurava um som mais leve, mais parecido com o Tardes Ensolaradas sabe, aquela vibe cremosa. De 2019 pra cá, comecei a separar outras coisas que eu gosto, criei a Mvuka com o Henrique Rocha, que é uma festa de afrobeat e mais recente a Manga Rosa, pra tocar música latina e brasilidades, estilos que também curto muito.

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TTT: Quais foram as primeiras festas que você olhou para os DJs com atenção?

KG: Certamente na Love em 97, nas festas do Isn’t e The Six (tive a oportunidade de produzir várias) e também nas primeiras festas de trance (2001-2003) mais afastadas, festivais menores, curtia bastante aquela vibe natureza, mas depois de um tempo acho que o rolê ficou muito distorcido pela onda da droga. Depois disso passei a gostar muito da curadoria do 5uinto. De 2015 pra cá presto atenção em tudo que rola na cena alternativa.

TTT: E a pandemia, vamos ter que falar um pouco dela ne? Foi um baque para toda a cena, certamente, mas para vocês que estavam lutando para ocupar o centro da cidade foi dolorido demais, como está o seu coração? Mais esperança ou ainda muita angústia?

KG: Vou começar pela ocupação do Centro da cidade pra depois falar da pandemia. Eu vinha dum batidão desde 2016, produzindo e ajudando diversos coletivos a realizarem seus eventos no Conic e também em alguns outros lugares. Acho que a ficha ainda não caiu pra muita gente, mas pra mim soa óbvio que os lugares pra fazer barulho de madrugada estão cada vez mais escassos. Um centro sem vida noturna, sem madrugada torna a cidade cada vez mais chata e reacionária. A cena alternativa precisa de locais pra cultura prosperar. E nesse aspecto o Centro e o único local capaz de intercambiar pessoas de diferentes regiões do DF. É preciso que a gente persista pra que a cena de Brasília (e quando falo Brasília me refiro ao DF) se torne mais forte e independente.

Sobre a pandemia, foi um momento de reflexão pra vermos como a fragilidade da cadeia produtiva da cultura pode afetar a vida de quem depende disso, fazendo muita gente passar necessidade, inclusive fome. Lembro que o Sérgio Collares fez uma provocação numas das nossas rodas de conversa que tem muito a ver com isso, disse ele: “o que vocês querem? Uma cena ou uma indústria? Se quiserem uma cena, continuem fazendo o que estão fazendo. E não há nada de errado nisso.”. Pra mim essa é uma provocação bem assertiva, por que a cena sofre bem mais do que uma cadeia produtiva bem estruturada em vários pilares sólidos. E com a realidade da pandemia, penso que isso deva ser construído, não uma indústria no sentido pejorativo-capitalista, mas uma rede de negócios que se sustentam em torno da criação de público e demanda por uma série de produtos e serviços que podem ser gerados pelos núcleos. Não dá mais só pra fazer uma festa e vender copo e camiseta. Tem que ter gravadora, filme, festa, roupa e exportação de tudo que pode ser feito. Se queremos viver disso temos que profissionalizar tudo.

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TTT: Corremos o risco de ficar sem o Sub Dulcina? Como isso Impacta na cadeia produtiva?

KG: O SuB Dulcina está lá adormecido, mas enquanto a gente estiver no Conic ele vai ter vida. Mudamos o nome pra SuB por conta de desentendimentos com algumas pessoas da faculdade Dulcina que reclamavam e não viam com bons olhos as festas no subsolo do Conic. No entanto, desde as décadas de 80/90 que sempre teve show de rock, hip hop, rap, techno e tudo mais por lá, sempre foi subsolo do Dulcina. O que a gente fez foi profissionalizar e legalizar o rolê. Não tinha banheiro, era sujo pra caralho, cheio de rato, sem alvará, sem extintor, luz de emergência, essas coisas. Usei meu conhecimento como produtor pra trazer a possibilidade de ocupar o local com festas ininterruptamente e me orgulho muito disso. Quantos projetos e coletivos nasceram ali naquele subsolo nos últimos anos? Certamente muitos! Espero que acabando essa pandemia a gente veja nascer muito mais!

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TTT: A Birosca está conseguindo se sustentar?

KG: A gente tá sobrevivendo, não tem sido fácil, não só pra gente mas pra todo o comércio. A forma low cost de pensar e funcionar foi o que nos trouxe até aqui, ainda tem um pouco de gasolina no tanque, eu vou até o fim. Quando decidi acreditar no Conic e no Dulcina sabia que seria um projeto de 10 a 20 anos de duração, precisamos passar essa fase e seguir em frente, é tudo ou nada.

TTT: Falando como negócio, a nossa situação política e social atrapalha muito?

KG: Atrapalha muito. Cada vez mais a pista de dança se torna essencial nessa sociedade doente. Ter um refúgio pra encontrar as pessoas que a gente gosta, ouvindo som que a gente curte, é pra mim uma das coisas mais importantes da vida!

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TTT: Como você imagina que a cidade pode se fortalecer e ter uma indústria de entretenimento no centro da cidade? É difícil demais essa interlocução com o poder público?

KG: Não acredito muito nessa interlocução com o poder público, já trabalhei com política e na minha visão de mundo essa interlocução não funciona. Funciona quando você tem amizade com o gestor público, mas não deveria ser assim. Até hoje, todas as referências que eu tive foram péssimas em todos os governos, sejam eles de esquerda ou de direita, quando vira poder os interesses são outros.

Acredito na interlocução entre os coletivos, de modo que a cena se fortaleça a ponto do pode público precisar dela, aí a história muda um pouco.

Se a gente for falar em indústria do entretenimento no centro, provavelmente as pessoas que vão controlar isso não vão ter o mínimo de sensibilidade cultural, vão trazer aquela gentrificação cafona, estilo playboyzada sem noção pra tocar música ruim. Aí a cena acaba de vez!

TTT: Você que ajudou a criar uma festa que começou a acontecer no início dessa crise, com o fantástico nome de Baladas em tempos de crise, imaginou que a crise fosse durar tanto?

KG: Sim a festa começou em março de 2015, de lá pra cá a crise só aumentou, pelo jeito vai durar bastante. Não posso deixar de dar os créditos ao Igor, a ideia do nome foi dele! E ocupar as ruas da cidade foi uma das coisas mais importantes que a gente fez nos últimos anos, de forma totalmente despretensiosa, deu no que deu. Fazer uma festa no Panteão foi memorável. E o mais louco disso tudo foi ter que parar de fazer a festa na rua no formato inicial. De março a setembro de 2015, a festa deu um salto de público de 50 pessoas pra 7 mil. Não tinha mais como cuidar do lixo e dos impactos que estavam sendo gerados, tudo isso sem alvará. E na real a gente nem queria multidão, festa boa é pra pouca gente e DJ no chão sentido a pista, era só isso que a gente queria! Foi daí que nasceu a ideia do SuB Dulcina: ter um espaço pra fazer nossas festas de forma barata, democrática e acessível.

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TTT: O que você diria para DJs que estão iniciando e querendo se envolver com a noite, que estão buscando espaço, ainda vale a pena tentar ser DJ aqui?

KG: Acho que vale muito a pena, sempre a depender do que você quer de verdade. Se for pra viver disso, aconselho a pensar em ter sua label, suas músicas, fazer suas próprias festas e criar suas marcas e parcerias com pessoas que você tem afinidade e valores semelhantes.

Se for só pra tocar e produzir, no segmento alternativo é muito difícil, certamente vai ter que procurar outras fontes de renda. Mas tem muita gente que quer só curtir uma vibe né?!

TTT: Tem acompanhado as produções e Djs novos da cidade? Tem alguns pra indicar?

KG: Cada set é um set né?! Um dia o DJ agrada, no outro nem tanto, isso é o legal de ir na festa prestigiar a galera! Dj set não é show, é percepção de momento! E foi exatamente isso que dá vontade de tocar, conseguir perceber a galera e o momento faz toda a diferença pra quem toca e pra quem dança.

Tenho curtido muito os sets da Demetria, da Caju, da Isa49, Madamy, Tyrone, JLZ,  Anachuri, Verano, Igor… Fiz umas produções com o Foka e o Verano em 2020, mas não lançamos ainda, espero que gostem. A Babi também tem feito umas produções que eu curto bastante! Sou fã do Forró Red Light, curto muito o trabalho do Fgon e de toda essa galera dos coletivos que fazem festa no Conic e no SCS, tem muita gente boa, com ideias novas e visões progressistas. Também gosto muito dos sets do LS2, do Miguel e dos seus.

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TTT: O que você espera desse retorno? Um monte de festa pra gente dançar? Vai ser 2 meses direto de festas, fazendo chuva ou sol?

KG: Acho que vai ter bastante festa sim! Mas creio que o público vai ganhar confiança aos poucos, muita gente vai estar receosa de curtir uma balada cheia. Penso que será um movimento lento e gradativo, até que o front volte de vez! Mas claro que teremos uma galera boa pra puxar esse movimento de volta às pistas.

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DJ Oblongui

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