Entrevista com a DJ FAA

DJ FAA: Um bate papo sobre música, carreira e a cena da cidade.

Fernanda, tudo bem? Primeiro que é uma satisfação imensa fazer essa entrevista com você. Vejo em você um dos talentos da nova geração. Percebo que você vem se aprofundando na arte da discotecagem. Hoje vamos falar um pouco disso tudo, beleza?

Conta um pouco sobre você, quantos anos você tem? Nasceu aqui em Brasília mesmo?

Eu tenho 22 anos, sou nascida e criada em Brasília. Sou estudante de publicidade, Co-fundadora do coletivo SNM, trabalho com figurino, produções e perrengues, sou virginiana doida das planilhas e gosto de suco de maracujá.

Como e quando descobriu a música eletrônica? Como foi esse processo?

Então, meu caminho com a musica é muito doido. Eu cresci em uma família muito musical, minha mãe sempre fez questão de eu e meu irmão Vitor estarmos sempre escutando algo novo. Ela cantava muito pra gente e nos fazia escutar tudo, de opera a samba hahahah. Quando eu já tinha uns 8 anos meus tios começaram a gravar e comprar cds para me dar de presente e foi ai que eu tive mais contato com a cultura pop, como summer eletrohits e Madonna. Quando eu cheguei na adolescência comecei a ser mais influenciada pelo meu irmão, que na época tinha uma banda e tocava diversos instrumentos. Qualquer coisa que ele estivesse escutando eu automaticamente abraçava e assim comecei a ter contato com artistas como Nicolas Jaar, Daft Punk, e Tangerine Dream. De pouco a pouco comecei a minha pesquisa própria. Em 2016 eu, meu irmão e mais 2 amigos começamos a pensar em fazer um projeto de musica eletrônica que pudesse abraçar tudo aquilo que a gente gostava e se interessava. Na época a gente não se sentia representado pelos projetos que estavam rolando na cidade. 1 ano depois fizemos nosso primeiro evento no SCS.

E logo que descobriu a música decidiu ser DJ?

Primeiramente eu quis tocar um instrumento, comecei aulas de piano e fiz algumas de baixo. Eu só fui começar a tocar em 2017 e foi meio que de supetão, uma amiga chamada Priscila Moquedace tinha um projeto chamado Jardim Elétrico e ela me fez um convite pra tocar na segunda edição. Eu já tinha uma pesquisa mas até então nunca tinha passado pela minha cabeça ser Dj. Eu aprendi a tocar para essa apresentação e nunca mais parei. 

Quais foram as primeiras festas que você foi e quais os primeiros DJs que você olhou com atenção? 

A primeira festa de musica eletrônica que eu fui foi o 5uinto, lá no falecido 904. A primeira festa que realmente me fez fica admirada, foi a Grau do coletivo Ímã, em 2016. Foi a primeira festa de rua que fui e todo o movi me deixou chocada. Eu só comecei a me ligar mais nos djs quando comecei a produzir eventos. Os primeiros djs em que me liguei mais foram o Anachuri e a Perrelli. Além do fato do Anachuri ser meu tio, eu amava sua pesquisa, tudo que ele produziu nessa época serviu de referencia pra mim. A Perrelli é foda, até hoje me faltam palavras pra descrever o seu trampo, ela é sem sombra de duvidas a Dj mais foda do Brasil, tudo o que ela faz me deixa passada. 

Ao mesmo tempo que me liguei nos dois, por já estar com o coletivo na ativa, todos os djs integrantes (Epia72d, LMT, Data Assault, Pal e Malu) foram meus professores e acabei “absorvendo” um pouquinho de cada. Até hoje quando vou soltar algum trabalho sempre peço feedback.

E como você vê a participação feminina nos rolês, já estamos melhorando?

Eu acredito que tudo da pra ser melhorado. Logo após começar a tocar me juntei com Malu e fizemos tipo uma dupla, só tocávamos juntas. E nessa época escutamos muuuuita besteira de djs homens, eles faziam questão de colocar banca e dizer que nosso trampo não era bom, que não éramos djs de verdade e outras varias coisas toscas. Nessa época não tinham tantas mulheres tocando ativamente nas festas e ao conversar com varias, que estavam tentando se inserir, percebi que todas passaram por coisas semelhantes. Acredito muito que foi graças a persistência e cara de pau de todas que essas pessoas se calaram e aprenderam seus lugares. Hoje fico muito feliz em ver que as mulheres estão cada vez mais presentes e reivindicando seus espaços, criando projetos próprios e botando banca. Mas acredito que existe um longo caminho pela frente, não basta colocar uma mina no line ou ter uma dentro do núcleo. Observo muito que sempre nos chamam pra participar quando é pra falar sobre a mesma pauta de “mulheres em rolês”, mas nunca nos chamam pra falar sobre produção de eventos, produção musical, discotecagem e criatividade. Precisamos de vozes ativas em todos os espaços, até porque as mulheres da cidade são parte fundamental da cena, sem elas não teríamos o que temos hoje, no nível que temos.

dj faa

E quais suas referências musicais? Djs, projetos, produtores…de quem você gosta?

Nossa são tantas…. Os Djs e Produtores que eu sigo a anos e sempre revisito são: Perrelli, BADSISTA, SONO TWS, Peggy Gou, Palms Trax, Sango, Gesloten Cirkel, Nicolas Jaar, Honey Dijon, Skin on Skin, Mall grab, Dj Boring, Akin Deckard, Rassan, Subjoi, Moma Ready, Djrum, Laurent Garnier, Flava D, DATA ASSAULT, Valesuchi,  Ryuichi Sakamoto, J Dilla, EPIA72d, Kenya20Hz, Flying Lotus, Egyptian Lover, RhR, Vivi an e Noporn. 

De projetos eu tenho como referência suprema o Confronto Soundsystem. Amo e admiro muito, vários núcleos como Sujo, Limbo, Espaço Vazio, Bruta, Nice & Deadly, Zona exp, A-mig, Lust e Vapør

É uma lista bem diversa e grande, tenho certeza que depois da entrevista vou lembrar de vários nomes que gostaria ter colocado hahahahah

Mas Referência é uma coisa muito doida. Eu não escuto só música eletrônica o dia todo. Música é minha base pra muita coisa e muitos outros trabalhos além do meu trampo como DJ. 

E você é do tipo viciada em música? Fica o dia todo escutando? E o que escuta em casa? Separa músicas em de escutar e dançar? Ou por conta do ofício escuta na maioria das vezes músicas para dançar?

SIM!! Eu escuto música o dia inteiro. O que eu escuto varia muito de momento para momento. Eu amo escutar Jazz, Mpb, Rap, Hip Hop, R&B e funk. Eu acredito que não existe diferença entre música para escutar e música para dançar, pra mim toda música é de dançar e escutar. Acho que o único estilo de música que eu nunca dancei escutando foi música concreta mas tenho certeza que alguém que já o fez.

E fora do universo da música eletrônica, tem algo que escute?

Sim! O tempo todo. Vários dos meus álbuns e artistas favoritos da vida não são de música eletrônica. Os que eu mais to escutando agora são:  Badbadnotgood, John Coltrane, Caetano Veloso, João Gilberto, Frank Ocean, Harry Styles, Jesus and Mary Chain, Gal Costa, Rosalia, Travis Scott, Madlib, Kendrick Lamar, Lizzo, Beyonce, Dua Lipa, Madonna, Jungle, The Last Shadow Puppets, Andy Stott, Little Simz e Jessie Ware

Tenho notado, depois que lancei o blog para contar um pouco da história da cidade, que pouca gente tinha conhecimento do que aconteceu aqui no passado no mundo da música eletrônica, esse foi seu caso? Quais coisas mais antigas você tinha ouvido falar na cidade?

Sim, o Blog tá sendo super da hora pra conhecer e entender mais. Eu tenho mais conhecimento da história de coisas específicas como projetos e coletivos, tipo o Confronto Soudsystem e Isn’t & The Six.

Muitos Djs, produtores de gerações anteriores viveram o dilema de sair ou não da cidade, e mesmo recentemente tivemos casos de pessoas muito talentosas que acabaram saindo de Brasília, como a Mari Perreli, a Ana Ramos e tantos outros, isso passa de alguma forma na sua cabeça?

Eu tenho 22 anos, quando fundei o SNM tinha acabado de fazer 18, de lá pra cá muita coisa aconteceu, e eu sei que daqui a 4 anos mais um turbilhão vai acontecer. O SNM mudou muito nesses anos e eu como pessoa mais ainda. Eu sei que pra alcançar o que eu quero eu vou ter que sair da cidade, viver novas experiências e aprender muito. Eu penso em sair, mas sempre tendo em vista o retorno, eu tenho uma visão muito clara da cidade que eu quero e do potencial de Brasília. Meu vô Marcos sempre falava pra mim da importância da renovação, se você vai nos mesmos lugares, conversas com as mesmas pessoas e vive as mesmas coisas uma hora você esgota as possibilidades, é preciso bater perna por aí.

Pode parecer uma visão emocionada pra muita gente, mas eu sei da importância de sempre lembrar de onde eu vim e nunca esquecer isso. Se essa cidade não fosse o que é com todos os seus problemas, doideras e coisas boas eu não seria quem sou hoje. 

E hoje, meu plano de vida é ajudar a transformar a cidade. Por mais que isso signifique sair temporariamente.

O que é mais difícil na sua visão em produzir eventos em Brasília?

A Burocracia e a falta de apoio do GDF

Quais DJs da nova geração da cidade você acha que as pessoas devem ficar atentas? 

Malu, JZN, Data Assault, Leriss, Epia72d, Pal, Armenia, Slow, Demetria, Fr0g, Madamy, Giograng, Cxxju, ANRMS e Gore

E produtores nacionais, o que você tem achado das produções nacionais? E os locais?

Eu admiro muito!! Galera tem feito um trabalho muito foda! Os produtores, no geral, estão em um nível absurdo. As produções que eu mais gostei e toquei no ano foram todas nacionais e tenho plena certeza que a galera já ultrapassou a barreira do nacional. Localmente a galera ta brabíssima! Eu admiro muito a galera aqui de BSB, esse ano tiveram vários releases que eu fiquei de queixo caído e ficaram no meu repeat por dias! Os Eps do Rassan, Broken, Giograng, Armenia, Allan Blue e EPIA72d foram os que eu mais escutei

O que você imagina que vai acontecer com o mercado de festas depois da pandemia?

A pandemia só fez as problemáticas que tínhamos antes se acentuarem. 

Coisas boas e ruins, ao mesmo tempo que tudo vai ficar mais difícil, também acho que as coisas verdadeiras e com propósito serão melhoradas. Falando dos projetos e iniciativas que estou envolvida, nesse tempo conseguimos nos organizar melhor e também nos unir mais, isso fez com que estivéssemos mais fortes para bater de frente com tudo aquilo que vai de encontro com nosso propósito e visão de cidade.

Eu não acredito nessa estoria de “novo normal”. As questões da cidade estão cada vez mais escancaradas para todo mundo ver. Acho que pós pandemia o importante é ver a realidade pelo o que ela é. 

Eu acredito que a existência de projetos vazios, sem propósitos reais, vão ficar cada vez mais insustentáveis. 

Não adianta fazer o rolê pelo rolê. Os produtores culturais têm que assumir seu lugar como agentes de mudança e realmente fazer a diferença e lutar pelo o que é certo, não vender ideais vazios só pela onda ou lucro.  

Você acha que em Brasília valorizamos pouco os talentos locais?

Sim. Eu acho que o mais valorizado ainda é o de fora.

Aqui em Brasília temos muitos djs, produtores musicais, produções e núcleos cabulosissímos! E mesmo assim a galera põe muita hype em cima de modelos, imagens e sucessos que reverberam em outros lugares do país. Eu sou muito sortuda e grata por ter uma cena que me abraça, eu já tive a oportunidade de me apresentar em vários lugares da cidade e longe de mim cuspir no prato que eu como, mas eu vejo que eu sou um ponto fora da curva. Não quero tirar o mérito do meu trabalho, porque eu sei o quão duro eu dou, mas me deixa revoltada ver uma série de talentos fodas que são subestimados, por questões bobas. Na maioria das vezes essas pessoas são mais valorizadas em outras partes do País do que aqui. Já vi muitos colegas e amigos serem criticados por causa do som que tocam e como tocam, mas na hora que trazem um artista de fora a pessoa pode fazer o que quiser que “todos” batem palma e acham lindo. Eu realmente não entendo.

Posted in

DJ Oblongui

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

× Como posso te ajudar?