EPIA72d conta sua pesquisa consciente de música eletrônica.

EPIA72d conta sua pesquisa consciente de música eletrônica.

musica eletronica brasilia

Vitor Assunção é conhecido como Epia72d e é DJ do coletivo Espaço Vazio. Vitor é um pesquisador e entusiasta de música e conta pra gente um pouco de sua trajetória.

TUNTISTUN: Vitor, tudo bem? Primeiro que é uma alegria imensa bater esse papo com você, DJ de uns dos coletivos que eu admiro muito na cidade, que tem uma pegada de ocupação do espaço bem legal!

Vitor: Muito obrigado pelo convite! Fico muito feliz em poder participar e trocar essa ideia contigo!

TUNTISTUN: Vamos falar um pouco do início, como foi sua infância na cidade?

Vitor: Hoje eu só consigo pensar nela de um jeito bem melancólico, de muita fantasia, uma incompreensão sobre as privações de não poder fazer o que eu queria na rua, de muito futebol, vivia sempre apaixonado por alguém da escola, e passei muito tempo na companhia de amigos e da minha irmã mais nova, a Fernanda. Foi uma infância muito querida, recebi muito amor dos meus pais, mas cresci muito cético sobre a necessidade deles gastarem mais tempo no trabalho do que com a própria família, ou pela ausência de utopia nos seus projetos de vida. Acho que minha geração, dos anos 90, e as que vieram depois ainda tentam remodelar a vida como algo que faça mais sentido, e que seja menos conformista, como se as coisas já estivessem dadas. Não sei se conseguimos mudar muita coisa até agora.

TUNTISTUN: O que você escutava antes de escutar música eletrônica?

Vitor: Quando era pequeno, eu só aceitava comer se me deixassem ouvir a Madonna, influência total do meu tio Alisson, que foi o primeiro raveiro da família e que colava com o DJ Isn’t, um dos pioneiros da cena de música eletrônica da cidade. Eu cresci ouvindo Daft Punk, então acho que a música eletrônica sempre esteve lá, de alguma forma, até por ter se tornado algo bem popular nos anos 2000. Antes de iniciar uma pesquisa e gosto consciente pela música eletrônica, ouvia muito indie, depois veio a época ‘cheio de querer ser’ misturada com o descobrimento do mundo, do Joy Division, Novos Baianos, Jorge Ben, Gilberto Gil, MC Catra, Tangerine Dream, 50 Cent, J. Dilla, Funkadelic, Racionais MCs, Parliament e um monte de coisa mais.

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TUNTISTUN: Quando descobriu a música eletrônica?

Vitor: Com certeza o contato que marcou o meu descobrimento da música eletrônica foi o álbum Discovery do Daft Punk. Mas, uma influência decisiva para engajar nas pesquisas e que fomentou meu amor pela música eletrônica foi o EP de Hyph Mngo, do Joy Orbison, que foi lançado em 2009, mas eu só o conheci em 2016. Desde então, ele é o artista e o DJ que me inspirou a inventar um estilo próprio e a ser também moleque doido DJzeras. O trabalho do Alva Noto com o Ryuichi Sakamoto, no selo Raster Noton, também foi algo crucial para me abrir as possibilidades da música eletrônica, assim como o trampo do Edgar Froese, tanto solo como no Tangerine Dream. E de cara, também me deparei nesse início com o Moritz Von Oswald e o Mark Ernestus no Basic Channel e no selo, ou sub-selo, Chain Reaction.

TUNTISTUN: Quais foram suas primeiras festas e Djs que te abriram os olhos?

Vitor: O comédia é que as festas que eu ia no início não contribuíram em nada nessa minha trajetória, foi algo muito importado pelo youtube, hadwax, discogs e a wikipedia. E, por isso, eu tinha pouca consciência de cena ou comunidade, era apenas um entusiasmo muito grande por ter conhecido todos os artistas que eu citei anteriormente. Mas, quanto aos DJs foram o Joy Orbison, Ben UFO, Tessela, o pai Jeff Mills no Liquid Room,  o Nicolas Jaar e o Richie Hawtin. Infelizmente, só homens e nenhum brasileiro ou brasileira. Hoje, eu critico até o Jeff Mills e ao mesmo tempo continuo respeitando todos eles. O bagulho agora é outro, o pensamento e a valorização da galera do DF é algo que me inspira muito mais hoje.

TUNTISTUN: E logo que você gostou da música decidiu ser Dj? Como foi esse caminho?

Vitor: Foi uma fita nada a ver. Eu já tentava produzir música a um tempo, e ai comecei a utilizar o Ableton Live para produzir na mesma época que iniciei uma pesquisa consciente de música eletrônica. O interesse levou à várias pesquisas de Internet, até que decidi fazer o curso com o DJ Wash, na DJ School, de Brasília. Foi muito bom esse primeiro contato com alguém que tinha tanta experiência como DJ. Em seguida, juntei com os melhores amigos para tentar fazer um rolê, aconteceu a primeira festa da Grau do Coletivo Imã, no SCS, sabíamos que era algo parecido que motivava a gente, a partir daí juntei o que eu só conheci na net com uma vontade gigante de fazer algo, além das amizades com a mesma vontade, e aí lancei a braba a primeira vez como DJ e Produtor Cultural!


Foi uma descoberta foda: ninguém vai te chamar para tocar em lugar nenhum e nem para fazer parte de algo, é melhor você ir lá e ocupar o espaço, faz o seu e construa aquilo que faz falta na sua realidade. Detalhe: eu disse que tudo isso começou porque estava tentando produzir música com o Ableton Live, mas até o momento não lancei nada. Mas até o começo de 2021 tem EP lançado!

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TUNTISTUN: Você escuta música o dia todo? O que costuma escutar em casa?

Vitor: Escuto sim! Acabei criando uma identidade muito forte com as músicas que eu toco como DJ ou que inspiraram as minhas iniciativas com o Coletivo SNM e depois com o Espaço Vazio, então tudo isso é paixão, lazer e trabalho. Mas, em casa eu aproveito para me aprofundar mais ouvindo funk e música ambiente, que são dois estilos musicais que eu ainda não vivo efetivamente na nossa cena cultural, mas que me enchem de inspiração e ideias. É MC Poze, Markim WF, kondzilla, brian eno, KMRU e os albums da greyscale e da chain reaction o dia todo!

TUNTISTUN: Tem algum(a) Djs da nova geração que você acha que merece a nossa atenção?

Vitor: É só o que tem! Vejo muito potencial na galera do meu coletivo, a Giograng, o LmT e a Pal, nos meus querides do SNM, minha irmã FAA, o Data Assault, Malu, JZN, assim como a Demetria, a DJ Slow, a Armenia, Allan Blue, True Call, Gore, Cxxju, Preta, Phyl R e o meu grande amigo M0fx, que tá na cena a um tempão mas vive se reinventando.

TUNTISTUN: Vamos falar mais do coletivo, quem faz parte do Espaço Vazio? São todos Djs?

Vitor: O Coletivo Espaço Vazio é composto pelo Mota (LmT), Paula (Pal) e a Gio (giograng). Todos são djs!

TUNTISTUN: Quais são as principais dificuldades que vocês enfrentaram para colocar o coletivo atuante?

Vitor: As principais dificuldades envolviam a ideia básica de ocupar espaços públicos. O que, apesar de ter demonstrações de avanço e desenvolvimento de uma identidade da nossa cena, ainda requer muita luta perante os órgãos públicos reivindicando o direito à cultura e o direito à cidade como práticas sociais e constantes. E essa dificuldade central é alavancada pela mentalidade reacionária de Brasília que demonstra uma vocação única para valorizar um passado problemático e que não serve de suporte para nossas aspirações do presente e desejos de futuro.

TUNTISTUN: Como você observa essa tentativa do governo em fazer o SCS um lugar misto de residências e comercio?

Vitor: A ideia de diversificar o uso do território do SCS incluindo habitações não é algo condenável, isso poderia ser aplicado como uma política de habitação de interesse social e promover a inclusão social no centro da cidade. Entretanto, a implementação dessa proposta como revitalização de uma área que já possui vida e consciência própria é algo extremamente problemático que, por si só, já implica em conflito e supressão dos modos de ser, agir e pensar que permeiam a vida cultural do SCS.

A materialização dessa problemática foram as ações coercitivas do DF Legal no dia 19 de setembro, em que os agentes tomaram os pertences das pessoas em situação de rua, como cobertores, roupas, alimentos e até medicamentos, alegando que se tratava de uma operação para retirar instalações irregulares do SCS. Temos que fazer frente a este projeto excludente e coercitivo, demonstrando que a forma mais coerente de desenvolver o centro é a partir das comunidades que já habitam o local, isso inclui as pessoas em situação de rua, os agentes culturais, os comerciantes, os ambulantes e os demais atores que se fazem presente nesses territórios!

TUNTISTUN: Quais são os valores e estilos de música que vocês tem como ideal?

Vitor: Acredito que as duas coisas estão interligadas, e por isso o estilo de música tem que dar vazão aos nossos valores. No Espaço Vazio pensamos muito em promover um sentimento de comunidade e em subverter a linearidade dos lineups e essa normatividade anacrônica da música eletrônica aclamada. Por isso, buscamos sempre convidar DJs que se interessam em trabalhar com a diversidade, trabalhando muito com as conexões entre os estilos do electro, techno, house, breakbeat, lo-fi, ambiente, e outros sons que sejam progressivos e utópicos. Não sei se isso é algo perceptível, mas é a nossa intenção. Requer tempo e muito trabalho para consolidar ideias como essas, e a pandemia parou a gente com apenas três rolês realizados. Estamos no aguardo do grande retorno, para podermos continuar construindo a nossa obra para a cidade e para nossa cena.

TUNTISTUN: Como é empreender na noite/diversão/cultura na cidade?

Vitor: É algo muito inspirador e cativante, porque envolve a realização de projetos e iniciativas, o que alimenta nossos sonhos e expectativas, ao mesmo tempo que contribui para a criação de uma comunidade descontinuada no espaço físico, que vive o seu ápice no final de semana, e segue interagindo o resto da semana nas redes sociais. E assim, vivemos uma experiência que transcende a nós mesmos, reforçando simultaneamente identidades coletivas e individuais. É loko demais. Sou feliz fazendo isso e apoio todo mundo que queira entrar nessa.

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TUNTISTUN: O que você acha da energia da pista de Brasília?

Vitor: Eu acho incrível participar dos rolês de Brasília como público, DJ ou produtor. Tenho um carinho muito grande pelos momentos e experiências que tive nos últimos anos e por todas as pessoas que conheci. Eu acho que Brasília tem uma abertura considerável para a diversidade de propostas e ideias, o que deve ser enaltecido e valorizado! Seria muito chato ter que fazer referência a só um mesmo estilo musical para poder estar incluído em uma cena. A normatividade artística e a consagração do consagrado precisam morer. Deixa os moleque brincar.

TUNTISTUN: Traz pra gente 5 músicas que te representam:

Mono Junk – With You (Forbidden Planet, 2014)

Vainqueur – Solanus (Chain Reaction, 1996)

CESRV feat. Fleezus & Febem (Ceia, 2020)

Big Bllakk – Trem Bala (2020)

Crazed BR – Conduta (2021)

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DJ Oblongui

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