1998 o ano que mudou a cena eletrônica de Brasília

1998 o ano que mudou a cena eletrônica de Brasília

O ano de 1998 foi um ano muito importante para Brasília e para a música eletrônica. Muita coisa aconteceu na cidade e reflito até hoje sobre suas consequências. Vou tentar explicar essa percepção que tenho e qual era o contexto da época.

Para começar precisamos lembrar que Brasília foi uma cidade idealizada, construída, e que foi inaugurada em 1960 no interior do país. Mesmo afastada dos grandes centros urbanos da época, como Rio de Janeiro e São Paulo, mas por ser a nova capital, Brasília acabou proporcionando a conexão de pessoas de diversos lugares do Brasil e do mundo. Pessoas que vieram em busca de novas oportunidades, melhores condições de vida, que estavam em missão e até mesmo curiosos, ávidos por vivenciar este momento.

A cidade prometia um novo ciclo de modernidade, interiorização e um urbanismo organizado. Porém, desde o início o urbanismo e a arquitetura foram desafiadoras para seus habitantes principalmente no que se refere ao transporte, que foi sempre escasso e precário. A cidade tornou-se propícia para o automóvel e a chegada de mercadorias é feita, até hoje, principalmente por estradas.

O acesso a tudo sempre foi complicado. Imagina uma cidade distante a mais de mil quilômetros de um porto, dependendo de estradas interestaduais e da aviação ainda jovem no país? Trazendo isso para o universo da música, imagina a dificuldade que era o acesso à informação sobre as novidades do mundo e o acesso aos discos importados. Em 1998 a internet ainda engatinhava. Abraçar um estilo de música que ainda era muito alternativo no mundo tinha ainda mais dificuldades.

Porém, a movimentação de pessoas é o que acaba proporcionando uma grande troca de informações. Além disso, a juventude desta cidade sempre foi muito inquieta e sempre buscou por conta própria alternativas para sair da mesmice. As poucas opções de lazer fizeram com que a música se tornasse uma dessas grandes ferramentas culturais, que acabou ganhando força na cidade e produziu grandes artistas.

O rock era a música do momento, e no início, o rock de Brasília influenciou muito a juventude de 1998 da qual falo. Era muito comum para muitos dessa época ter uma banda ou um amigo que tocasse em alguma da cidade. Era uma forma de juntar a galera. Mas a música eletrônica estava ganhando seu espaço. E pra mim, que desde o início sempre busquei mostrar a música eletrônica para o maior número de pessoas possíveis, estava animado com o momento, pois acreditava muito no som e na energia dessa música. E ela precisava ser compartilhada. Mas ganhar espaço em uma cidade com a fama de ser do rock não era fácil e muitos não abraçaram de início. Muitos recusavam esse novo estilo.

É aí que entra mais uma vez na história Pedro Tapajós (The Six) e André Costa (Isn’t) que acreditavam na música e pesquisavam muito. Estar bastante longe das novidades e buscar cultura alternativa antes de existir internet não era fácil, era um trabalho de garimpagem, de muita pesquisa, pois muitas vezes precisávamos comprar discos somente pelo conhecimento que tínhamos sobre o artista, não dava para escutar uma prévia do disco.

Ou você estudava bastante até decidir o disco que iria comprar ou gastava seu dinheiro com músicas nem tão boas assim. E a verdade é que sempre queríamos comprar O disco para poder tocar na pista e fazer valer as dificuldades para se ter acesso à ele na época.

Depois de me integrar a esse grupo pioneiro inicial e juntos realizarmos o sonho de montar o primeiro club de música eletrônica da cidade, ficou mais claro que tínhamos atravessado essa primeira barreira e víamos à frente o real potencial de Brasília. Sentíamos que havia uma abertura, pois víamos uma geração de jovens brasilienses interessados nessa música.

De uma maneira muito rápida saímos de uma cidade que lutava para juntar os amantes da música eletrônica em seus eventos, e entramos em um mundo onde essa música virou o centro da atenção, em todos os veículos de comunicação de massa do Brasil e do Mundo. Foi um boom. Em pouco tempo esse estilo de música e de vida estavam nos jornais, nas principais revistas do país e na televisão. Ser clubber estava chegando no seu auge. Passamos do fim dos anos 80 até o início dos anos 90 lutando para existir, e depois do Wlöd em 96, junto com esse boom, tudo tinha tomado uma outra proporção.

Nos meus textos anteriores eu contei a história do início da música eletrônica em Brasília até 1997, e para falar de 1998, que é o ano da mudança, trago uma reflexão que quero compartilhar O que acontece neste ano é que iremos ter de lutar contra inimigos reais, problemas concretos que não vínhamos enfrentando até então, pois estávamos todos encantados com esse boom, porém a influência política mudou os rumos da produção cultural e dos eventos de música eletrônica na cidade.

Mas antes preciso falar de uma particularidade que Brasília tem, que é a de antecipar tendências. Muitos de fora da cidade acreditavam que vivíamos isolados da realidade cosmopolita. Claro que não podemos comparar com a realidade Rio/São Paulo, mas com a singularidade de ter um grande fluxo de pessoas, sejam nacionais e internacionais, isso acaba trazendo uma experiência diferente para a cidade, pois são muitas trocas constantes.

A relação com pessoas de outros estados e de outros países sempre influenciou a cultura da cidade, não tenho dúvida. Como abordei no texto que fala do início da cena eletrônica em Brasília, a primeira pessoa a trazer os discos fundamentais para o desenvolvimento da cultura eletrônica foi uma pessoa que tinha amizade com o filho de uma pessoa que trabalhava na embaixada americana.

Outro lugar que foi importante no início, mas que eu não abordei pois eu não vivi muitas experiências lá, pois foi a época em que eu estava morando em São Paulo, foi a embaixada da Bélgica. Muitas festas aconteceram lá nos anos de 93 a 95, quando um dos filhos do embaixador, chamado Tinko Czetwertynski, começou a produzir umas festas nas dependências da embaixada.

Mais recentemente o DJ Ricco também realizou eventos na embaixada do Reino Unido, todos de música eletrônica. A embaixada da Alemanha e da França também já fizeram e apoiaram eventos onde a temática era a música eletrônica. Essa relação sempre aconteceu desde o início.

Alguns exemplos dessa antecipação de tendências que trago aqui são: O Bleep Techno da Warp, o conceito do espaço lounge muito antes de explodir no Brasil e a introdução do Jungle/DnB nas pistas de dança. Essas tendências específicas tiveram a significativa contribuição de Pedro Tapajós e André Costa. Eles, mesmo na “distante Brasília”, sempre foram pessoas muito antenadas com as tendências no universo da música e souberam aproveitar os encontros e compartilhar as novidades nas pistas. 

Como já abordei em textos anteriores, Brasília, na década de 80 e 90, fervilhava culturalmente. Muitas festas, muitos bares, muitos shows, muitas bandas e grupos de teatro locais. Até 1998 vivíamos uma época de muitas produções artísticas. Existia de forma geral um olhar mais tolerante e de apoio para realização de eventos, para a cultura, para a festa. A mídia, em grande parte, era sempre positiva, falava muito do crescimento da música eletrônica no país e no mundo, e isso por um tempo gerou notícia e era uma novidade. Não me esqueço da reportagem em que o DJ MauMau foi estrela de uma matéria no fantástico da TV Globo. Essa mega exposição nos trouxe o reconhecimento, mas também acabou nos trazendo os olhares nefastos.

O Réveillon de 1997 para 1998

Com os contatos pelo Brasil se intensificando por conta do surgimento da internet e com o fortalecimento nacional da lista de discussão br-raves, um grupo formado por amantes e curiosos da música eletrônica combina de passar o réveillon juntos em Trancoso, na Bahia. Como éramos um grupo que estava à frente no uso da internet dentro da cena eletrônica brasileira, logo nos aproximamos do maior portal sobre o tema na época, o rraurl.com.

No ano anterior eu tinha passado o réveillon na Bahia e visto o potencial de fazer festas no sul do estado, principalmente em Trancoso, então coloquei pilha para irmos para lá com a galera da br-raves e do rraurl.com. Nessa viagem do ano anterior eu tinha visto nitidamente que a música eletrônica invadiria o litoral do sul da Bahia, o boom era mundial e o local aqui no Brasil era perfeito.

Com o destino Trancoso certo alugamos uma casa sensacional e juntamos pessoas de Brasília, do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Belo Horizonte, de Curitiba e de Florianópolis. Levamos toca-discos, mixer, caixas de som e principalmente disco, muitos discos. Nesse grupo, 90% das pessoas eram DJs. Foi uma troca de experiência incrível. Várias realidades diferentes, vários sons diferentes. Muita troca boa.

Tenho ainda registrado na minha memória a música que marcou meus sets nesse verão, que foi The Hostile – Ambush, uma produção do Mad Mike do Underground Resistance. É uma música que aparentemente não parece que vai acontecer muita coisa mesmo, mas que do meio para o final vira um Tech-Jazz lindo, uma coisa fenomenal.

O que vimos nessa viagem, talvez pela quantidade de gente indo atrás da música eletrônica, gente de todo Brasil e do exterior, foi que a música realmente estava chegando com muita força. Queríamos aproveitar que estávamos lá, onde vários núcleos de festas estavam presentes fazendo seus eventos, e fomos em algumas raves que aconteciam na praia e também fizemos muitas festas na nossa própria casa. Era mágico poder dividir sentimentos semelhantes e descobertas de ritmos, conviver com pessoas de outros lugares, de diversos estilos mas com o ideal parecido.

Depois de uma semana incrível em Trancoso, onde realizamos e fomos a várias festas, era hora de deixar a Bahia, voltar para Brasília com mais energia pois ano prometia.

Inside Club

No fim de 1997 um novo espaço abre na cidade, o Inside Club, localizado no subsolo da comercial da 109 norte. Era um espaço diverso, como muitos da cidade na época, e alugava para produtores locais realizarem seus eventos. A primeira festa eletrônica a acontecer lá foi no dia 13 de dezembro de 1997 com a dupla Isn’t e The Six fechando o ano e desejando boas férias.

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Cena Eletrônica – Inside Club

O Inside abriu espaço para muitas festas de variados estilos. Era uma casa que abrigava shows de bandas locais e DJs de música eletrônica. Muitos DJs começaram a tocar neste espaço. Lembro-me claramente de uma noite que toquei lá com o Ric Novaes, em uma noite produzida pelo Chico Cavalcante, que depois viraria o DJ Chicodélico da Flip Out. Era dia 13 de fevereiro de 98.

A noite chamava-se 13º elemento e para mim foi uma noite iluminada, pois foi a noite que encontrei para sempre o amor da minha vida, minha esposa, a Luanna Tani. É ela que me incentiva e me ajuda a deixar registrado aqui isso tudo. Ela me fez acreditar que era importante compartilhar com todos que quisessem conhecer um pouco do que aconteceu na nossa cidade, e também a discografia que tenho em minha memória. Ela gosta dessa frase: “pensar no passado, para compreender o presente e idealizar o futuro”. Era uma sexta-feira 13 e a noite foi mágica.

Teve um outro evento lá e que eu consegui o registro (foto abaixo), que contou com o som de Fred Lobo, Geraldo Horta, Henrique Hermeto e André Muller, o que já era um indício de que a função do DJ estava ganhando terreno em vários estilos.

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Cena Eletrônica – Inside Club

O carnaval em Campos do Jordão

Depois daquele réveillon na Bahia,  esse mesmo grupo, formado pelo pessoal da lista de discussão br-raves e do portal rraurl.com, e que tínhamos ido juntos para Bahia, combina de passar o carnaval em Campos de Jordão, na casa do avô da Gaia Passarelli uma das fundadoras do rraurl.com. Mais uma vez juntamos o grupo de Brasília com o pessoal de São Paulo e Belo Horizonte. Nessa viagem além do carnaval era a comemoração do retorno do Ernani Pelúcio que ainda não fazia parte desse grupo, mas que eu sabia que se integraria facilmente. Ernani tinha passado uma temporada em São Francisco (EUA) e lá já tinha se conectado com a cena eletrônica americana.

Nessa viagem eu e o DJ Ls2 tocamos bastante para a galera e a partir desse momento vi que o Ls2 era um DJ muito talentoso e eu gostaria de fazer uma parceria mais longa. Além da técnica ele ainda tocava um som diferente do que a maioria estava tocando na época, ele tinha uma levada mais alegre, e lá mostrou o seu talento. Lembro que a música que mais fez sucesso na pista neste fim de semana foi uma que o Ls2 tocou, Samba Magic do Basement Jaxx. Ouvir pela primeira vez essa música na nossa pista de carnaval entre amigos, o que dizer? Indescritível!

Teve uma outra música que ficou marcada para mim nesse período que conheci com o Ls2 tocando lá, mas acabou tendo uma outra história na minha mão. Eu, depois de ter ouvido a música na pista em Campos do Jordão, pelas mãos do Ls2, ao final da viagem fiz de tudo para ele me vender o disco. Acredito que ele talvez não achasse a música essa maravilha toda, e acabou me vendendo. O disco virou um dos meus maiores hits na época. Tan-Ru – Changeling.

Jeff Mills em SP

O ano de 98 realmente não seria um ano qualquer, e em março, finalmente chega a hora da tão aguardada vinda do DJ Jeff Mills ao Brasil. A lenda de Detroit. A tentativa de trazê-lo vinha se arrastando desde o início de 97. Finalmente tinha chegado a hora. Eu sabia da importância que seria essa vinda dele ao Brasil e queria trazer um pouco dessa atmosfera para a cidade.

Sabia que seria uma inspiração para a disseminação do techno em Brasília. Fiz propaganda buscando por mais pessoas interessadas em ir, e pela importância histórica do evento, muita gente se mostrou interessada em entrar nessa aventura. Era tanta gente que decidimos criar uma excursão para essa noite, a apelidada caravana clubber feliz:)

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Na frente do ônibus que nos levaria para ouvir a lenda – Da esquerda para a direita: Ls2, Ernani, eu, Maze One e Sérgio Collares

Era uma época em que as viagens de avião eram menos acessíveis e com a excursão certamente teríamos mais pessoas e assim diversão garantida do início ao fim da tão sonhada tocada. Como tínhamos um número suficiente para fechar a viagem decidimos pegar uma empresa conceituada no ramo, a Jovem Turismo para prestar esse serviço. Na sexta-feira à noite marcamos o encontro no tradicional ponto de saída de ônibus de excursão da cidade, o Hotel Nacional. Sexta-feira, às 22 horas, saímos com destino a São Paulo em um ônibus cheio de jovens ansiosos para o que seria uma das mais incríveis experiências sonoras já vividas.

Nem preciso dizer que foi uma viagem muito divertida, principalmente porque estávamos viajando em um ônibus muito confortável, com alguns lugares vagos, muitos amigos e música rolando em fitas K7 o tempo todo. Óbvio que pelo nível de adrenalina poucos dormiram. Chegamos bem cedo em SP. Logo às 7h da manhã entramos com o ônibus da Jovem Turismo nos Jardins e peço para o motorista parar na rua que ficava a casa do DJ Gil Bárbara, o fundador do rraurl.com.

Alguns foram encontrar amigos e outros foram bater perna pela cidade e eu, mais algumas pessoas, como minha Lu, fomos dar uma breve descansada na casa do Gil. Tomamos banho e saímos para ver as lojas de discos e roupas da cidade. Quando eu contava para meus amigos de São Paulo, ninguém acreditava que eu tinha vindo com esse tanto de gente, e tinha viajado mais de 1000 km de ônibus para ver um DJ. Mas eu sabia da importância do DJ que iria se apresentar, e para mim, foi sem dúvida um privilégio ver o Jeff Mills em um dos seus melhores momentos na carreira.

À noite todos se encontram no ônibus já prontos, pois ele nos levaria ao local onde seria a grande tocada. Acho que fomos os primeiros a chegar. A casa noturna onde o evento iria acontecer se chamava Florestta. O nome e a inspiração do local era de ter um ambiente além da pista de dança, ao ar livre e arborizado (hoje parece banal, mas na época não era) e onde as pessoas pudessem sentar, fumar seu cigarro e conversar um pouco. Mas em uma noite com o Jeff Mills o espaço ficou quase inutilizado. As pessoas iam ali pegar um ar rapidamente, pois estava quente, e voltavam para a pista de dança.

Foi uma noite histórica, com o DJ MauMau abrindo e fechando a noite para o Mills.

Aguardávamos também com ansiedade essa abertura e para nossa sorte MauMau estava muito inspirado. Ele estava em um momento da sua carreira que fazia coisas inacreditáveis no comando das pistas. Todos tomados, atentos a cada virada, a cada música que entrava. E ele abriu com maestria fazendo com que todos entrassem no clima, na vibe certa.

E qual era a galera mais animada na pista? As 30 pessoas de Brasília. Lembro claramente eu conversando com Maze One e com Leo e Fabrício Cinelli, que o que o MauMau estava fazendo já estava incrível e que ainda tinha o Jeff Mills! MauMau tocou por 2 horas, e já nos 30 minutos finais começa a ser observado por Mills que eventualmente comentava com seu empresário sobre o DJ. Devia estar comentando bem, pois o clima entre eles parecia muito bom.

Quando Jeff Mills se prepara para entrar, olhando sua bag e pegando seu fone, MauMau coloca uma música do artista que tinha sido lançada há relativamente pouco tempo. Cubango, do Purpose Maker 4.

Essa foi a deixa para o Jeff Mills entrar, e nas próximas 2 horas nos presenteou com um som absurdamente intenso, fazendo aquilo que ele mais sabe fazer, cozinhando e fritando todos! Ele com seu tradicional setup de 3 toca-discos e ainda uma 909 para complementar as batidas era um espetáculo de técnica, de rapidez e de feeling. O ritmo dele era tão intenso que mal dava tempo de guardar os discos de volta em suas capas. Durante muito tempo nós em Brasília falamos desta noite e passamos alguns anos escutando muito Jeff Mills e outras coisas dele. Sua vinda ao Brasil nesse momento foi realmente incrível. Foi uma chave acionada na mente de muitas pessoas e DJs da cidade.

O Rock Machine

Existiu durante o período de um ano, na 315 norte, um lugar chamado Rock Machine. Eu já comentei dele no post anterior com uma festa do Pedro e André que foi o prelúdio da Crex Crex Crub. Quem comandava a casa era o DJ Fábio PSK que foi mais um parceiro que apareceu para se juntar ao grupo. Eu e o DJ Ls2, no começo de 98, fizemos algumas festas lá com o nome de Control e era muito louco tocar nessa casa.

Ela ficava em um subsolo, tinha um excelente ar condicionado e o teto era rebaixado de gesso. Colocamos ali um PA de 4 em um espaço relativamente pequeno. Passamos a noite toda tendo que ficar soprando o disco por conta dos pedaços de gesso que iam caindo do teto se desmanchando em cima dos pratos de toca-discos.

O nascimento do TUNTISTUN

Essa sintonia com o DJ Ls2 foi muito produtiva e gerou uma parceria que durou muitos anos. A experiência em Campos de Jordão foi muito positiva e todos ficaram encantados com a nossa sintonia. Eu sempre vi com um olhar positivo o surgimento de novos talentos, isso sempre me motivou a melhorar e me dedicar mais ainda à pesquisa e à técnica. Nessa época todos os DJs estavam juntos, um apoiando o outro no desenvolvimento das habilidades, e eu ver ao meu lado mais gente dedicada e talentosa só me dava mais energia e vontade de sempre me aprimorar mais.

O primeiro fruto fora das cabines dessa parceria com o Ls2 foi o lançamento de um fanzine chamado TUNTISTUN (no primeiro número foi Tuntistum). A nossa ideia era difundir a cultura TECHNO/HOUSE em Brasília. Como já mencionei, era uma época em que a música eletrônica crescia muito por conta do boom e tudo o que era ritmo eletrônico era chamado de TECHNO. Queríamos disseminar a informação e estreitar os laços com o público. Quem deu esse nome genial, que faz referência as batidas repetitivas da música, foi o Ricardo Novaes, o Ric, DJ Kill, que mais tarde viraria DJ Mr. Spacely.

Nessa época era comum as críticas em relação a esse estilo de música comumente chamado de “bate estaca”, “tuntistun”, e daí veio a inspiração. O zine número 01 era totalmente amador, feito no word, xerocado, grampeado a mão. Somente a partir da segunda edição que ele evoluiu, ganhou patrocinadores (principalmente a loja de discos Sounds e a pizzaria Pedacinho), uma diagramadora, a fantástica Verusca Gírio e um editor e webdesigner, o querido Nivas Gallo. Eu irei disponibilizar trechos dos zines a medida que eles forem entrando na história ao longo do texto.

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Cena eletrônica – Zine número 1 – Acervo Lu

Deguste Jungle Bar

Com o retorno do Ernani à Brasília, depois de uma temporada de dois anos em São Francisco, ele volta totalmente integrado à música eletrônica. Viu de perto a cena rave americana florescendo e quando voltou para Brasília, decidiu nos ajudar. E assim, mais um integrante entra para a Couhutec, agora formada por 3 amigos que se conhecem desde os 7 anos de idade, Eu, Leo Cinelli e Ernani Pelúcio.

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Cena Eletrônica – Deguste

Com esse trio de base chamamos o DJ Ls2 para um novo projeto, em um lugar chamado Deguste Jungle Bar. A casa era um restaurante super legal e ficava na 302 sul. Tinha como um dos sócios uma pessoa que contribuiu bastante para o desenvolvimento da cena local, o também DJ e produtor musical Henrique Hermeto. Henrique fazia parte da banda Obina Shock que fez sucesso na cidade na década de 80. Depois acabou virando empresário, DJ e começou a produzir música eletrônica, focando no Deep House.

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Cena Eletrônica – Fachada do Deguste Jungle Bar

O Deguste foi importante, pois foi uma escola para muitos DJs iniciantes na cidade. Tinha uma pista relativamente pequena que enchia fácil, e era um lugar super agradável com ambientação temática e mesinhas do lado de fora na parte de trás. Nós fazíamos uma noite no domingo fim de tarde que lotava. No som um novo parceiro, Ernani Pelúcio, como DJ Vortex, e mais uma vez o DJ Kill.

Era legal pois as pessoas podiam comer um lanche leve e gostoso e depois mais tarde a pista enchia. Inicialmente a casa abriu para eventos de música eletrônica aos domingos onde a Couhutec fazia um revezamento com a equipe ligada ao DJ Isn’t. Nessa época apareceu um novo Live PA na cidade, com Jason, que era um menino muito talentoso, e que anteriormente era baterista da banda de rock/hardcore local chamada Bois de Gerião.

No Deguste Jungle Bar, pela primeira vez em projeto solo, Marcelo Martins (Nego Moçambique) se apresenta com seu novo projeto de Live PA, o Radiola Man. Bição (Onio) e Giuliano Hopper fecham o line.

Cena Eletrônica – Flyer Deguste

O Deguste abriu espaço para DJs iniciantes e novos projetos alternativos na cidade, e também era um espaço que abrigava os Djs de fora que se apresentariam no fim de semana. Tocavam na sexta ou no sábado em alguma festa, e no domingo, no Deguste. E como estava um movimento crescente, depois do boom, com o tempo a música eletrônica foi ganhando mais espaço dentro da programação da casa com a abertura em outros dias.

Cena eletrônica – Deguste Jungle Bar – Acervo pessoal Lu

DJs que tinham sido crias do Wlöd e da miQRa começavam a tocar, e novos estilos começam a ganhar público. Aqui trago alguns registros de outras festas que aconteceram no Deguste, como a que aconteceu com o DJ Kalif (na época K Leaf), que foi frequentador do Wlöd e que posteriormente foi residente de uma das principais casas de Techno de Dublin, na Irlanda. Também teve o DJ Marlos, outro frequentador da Wlöd e da miQRa junto com Henrique Hermeto e Geraldo Horta.

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Cena Eletrônica – Deguste Jungle Bar

Com o crescimento do Drum n’ Bass na cidade, muito provocado pela dupla Isn’t e The Six, novos DJs também começam a aparecer nesse estilo, e o Deguste foi um dos espaços que abriu essas portas. No fim do ano um novo projeto começa a revezar aos domingos com a Couhutec, o Break The Beat com os DJs Arlequim, Kax, Linkage e Twin Cam. Todos também foram influenciados e foram frequentadores do Wlöd ou da miQRa. Bruno Arlequim sempre foi um DJ talentoso que passeou com qualidade em vários estilos eletrônicos. 

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Cena Eletrônica – Deguste Jungle Bar

Comandou junto com o DJ Wash uma escola de DJs na cidade, a DJ School. Kax foi um dos talentos iniciais do DnB, Linkage talvez seja um dos melhores DJs nacionais do estilo Atmospheric Drum n’ Bass, e Twin Cam foi um dos grandes destaques nacionais do estilo, sendo sua técnica de mixagem e o grave característico grandes marcas que o fizeram ter bastante destaque na época. Falarei mais sobre esses DJs ao longo da história.

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Cena Eletrônica – Break the beat – Deguste

Ambulantes

Em maio de 1998 uma ideia genial é criada. Era um momento de vibração intensa e muitas festas. A partir de 98, depois da momentânea divisão e segmentação de estilos, aconteceram algumas reaproximações. No próprio Deguste, onde os estilos 4 x 4 estavam dividindo datas com estilos de Breakbeat, com o intuito de que ambas se fortalecessem, muitas uniões aconteceram, como na Ambulantes.

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Cena Eletrônica – Ambulantes

Ambulantes foi uma festa idealizada por Marcelo Sávio, DJ Isn’t e a DJ Donna, todos sempre muito entusiastas e atuantes na noite. Marcelo era frequentador da noite de longa data, Donna foi a primeira DJ feminina da cidade a se destacar e que acabou construindo uma carreira sólida no movimento Hip Hop do DF.

A ideia da festa era chamar vários núcleos de festas (antes de serem chamados coletivos) para cada um deles produzirem uma noite no evento. Tinha todo um enredo bolado para a festa e ela aconteceria no espaço externo do restaurante Farol do Iate, no Iate Clube.

O evento de abertura foi a continuação de uma série que a equipe Ambulantes vinha criando na cidade com festas dentro de caminhões. A pista de dança era montada dentro de um caminhão de mudanças. Era uma época em que o Isn’t estava querendo desafiar os padrões de espaço para festas. Essa ideia gerou muitos frutos marcantes para a cidade, como na festa da Arquitetura do ano de 1998, em que ele junto com Pedro Tapajós, fizeram uma pista dentro de um banheiro no mezanino do minhocão da UnB.

Nessa Ambulantes eles tiveram a ajuda do Janjão, o grandão das mudanças.

Lata Digital

A segunda festa desse grande evento ficou a cargo da Couhutec, a produtora que eu tocava com Léo Cinelli e Ernani Pelúcio, e teria como atração o DJ MauMau, e o DJ Ls2 completando o line up comigo. Como as datas com a ambulantes acabaram coincidindo, acabamos entrando em uma acordo com a equipe e encaixamos a festa dentro da Ambulantes.

No grupo do facebook chamado BSB Nigth, que é administrado por JVC, ele nos recorda que conseguiu uma matéria para o DF TV sobre o evento, com isso o evento cresceu muito mais do que esperávamos. Nele, JVC aproveita para agradecer à equipe da Ambulantes por ter trocado a data, ao Pedro Tapajós por ter proporcionado essa negociação e pela organização do caixa, e à nossa hostess Luanna Tani, pela organização na entrada do evento.

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Cena Eletrônica – Flyer Lata Digital

Cena eletrônica – Festa Lata Digital – Acervo pessoal Lu

Em eventos às vezes acontecem fatores externos que podem contribuir positivamente ou negativamente para o resultado. E dessa vez, com a reportagem do DF TV a festa ganhou uma proporção gigantesca, inesperada. Na semana do evento todos os ingressos antecipados colocados à venda já tinham sido vendidos e o telefone do restaurante e do próprio clube não paravam de tocar a semana toda com pessoas perguntando sobre os ingressos.

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Cena eletrônica – Crachá da produção

Cena eletronica – Acervo pessoal Lu

Ficou claro para todos que o espaço inicialmente destinado ao evento não suportaria a quantidade de pessoas que compareceriam a festa, e na semana da festa, quase no fim de semana, o clube ordenou que para realizar o evento ele deveria ser transferido para o ginásio do clube. A ideia inicial era de ter no máximo 800 pessoas na festa, mas indo para o ginásio ela levou quase 4.000 mil pessoas.

Cena eletrônica – Festa Lata Digital – Acervo pessoal Lu

Foi inacreditável toda a manobra que tivemos de fazer de última hora para mudar a festa de lugar. Tivemos de aumentar a quantidade de tudo que tínhamos imaginado, mas no final deu tudo certo. Foi sem dúvida a maior festa que a Couhutec produziu.

A minha primeira tocada fora de Bsb

Como extensão de um fim de semana intenso em Campos do Jordão, eu e DJ Ls2 somos chamados para tocar pela primeira vez fora de Brasília. Juntos tocamos na festa Freakout de Belo Horizonte realizada pelo Filipe Forattini, membro da br-raves, e que estava presente tanto no réveillon na Bahia como no carnaval em Campos que contei anteriormente.

Acredito que naquela época Brasília já tinha um som diferente do que se tocava tradicionalmente no eixo Rio-SP, e que isso surpreendeu de certa forma as pessoas que eram de outras cidades. Esse foi um ano que começamos a ser chamados para tocar em outras cidades do país e ganhamos mais espaço nacionalmente.

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Cena Eletrônica – Festa Freakout BH

Nessa primeira viagem para tocarmos fora muitas pessoas de Brasília decidiram ir com a gente. Foi o segundo ensaio de uma novidade que também introduzimos na cena nacional, a caravana clubber. Foram inúmeras as viagens que fizemos nesses anos. Bahia, Campos do Jordão, São Paulo, Belo Horizonte e depois Goiânia e Santa Catarina, foram alguns lugares por onde fizemos algumas viagens em grupo.

Isso encorajava as pessoas de outras cidades do Brasil a também se articularem e irem a festas em outros estados prestigiar os DJs que estavam gostando. Nessa festa em Belo Horizonte alguns amigos de São Paulo também foram, o que acabou resultando em mais um encontro de pessoas que faziam parte da br-raves.

Gotas Analógicas

Em julho de 1998 começo um projeto com o nome de Gotas Analógicas onde realizei uma série de festas. A primeira delas foi uma aventura épica, quase uma epopeia. Depois de visitar alguns lugares decido fazer a festa numa chácara depois do Varjão, no caminho para o setor de mansões do lago norte. Acho que o nome do lugar era chácara Araguaia, ou a entrada dela ficava perto dessa chácara, mas eu lembro de uma placa com esse nome como referência do lugar.

Para essa festa chamo novamente o DJ Spiceee para tocar e convido também para fazer sua estreia como DJ, um grande amigo meu, o DJ Rafael Droors. Droors depois desse início teve uma carreira na música eletrônica muito sólida, como DJ e produtor. Foi estudar produção em Londres, lançou vários discos e teve um projeto de sucesso com outro gênio amigo nosso, o Dudu Marote – o Jamanta Crew.  

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Cena eletrônica – DJ Droors – Acervo pessoal Lu

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Cracha do DJ Droors da Gotas Analógicas

A festa já dava indícios de que seria emocionante quando fomos levar o DJ Spiceee para passar o som e conhecer o lugar. No caminho que dá acesso ao setor de mansões do lago norte, tem um pedaço que hoje é o CA do lago norte, antes do Varjão, e que você consegue ter uma vista legal à frente. Era um período do ano que já não víamos chuva há muito tempo e por isso, a cidade já estava muito castigada com a secura. Lembro do carro passando por aquele cenário, sol forte do meio da tarde e o Spiceee olhando para a vista, vira para mim e comenta: “nossa, estamos entrando tipo num deserto de Jerusalém?”

O nome da festa de Gotas Analógicas veio em um momento que o processo de digitalização das coisas estava começando, e a ideia era ter ainda um respiro analógico em meio a essa mudança que já visualizávamos. Para a surpresa de todos, no meio da madrugada, a festa foi brindada com uma pequena chuva fina que era totalmente imprevisível naquele mês, foram pequenas gotas NAO analógicas

Para completar os acontecimentos insólitos, ao final da festa, recolhemos tudo, faço todo o fechamento, e eu e a Lu somos os últimos a ir embora do lugar. Devia ser por volta das 8 horas da manhã quando finalmente deixamos o local do evento. Tinha dado tudo certo e eu ia dormir tranquilo, ou pelo menos achava.

Não me lembro bem a hora, mas sei que sou acordado perto da hora do almoço com um telefonema na minha casa dizendo que um pedaço de mata perto de onde tinha sido a festa tinha pegado fogo e que nós da festa provavelmente éramos os culpados. Achei super estranho pois eu tinha sido o último a sair e não tinha visto foco nenhum de incêndio. E para completar naquela madrugada tinha chovido. Enfim, para resumir a história, eu estava correndo o risco de ser preso por crime ambiental se não negociasse com eles e doasse 100 mudas de alguma espécie do cerrado.

Não quis investigar muito para saber se essa história do fogo era verdade mesmo, mas para não correr o risco comprei as 100 mudas e doei ao local. Quando tive de retornar lá para entregá-las não me lembro de ter visto focos de incêndio. Era o primeiro indício de que as coisas não iam continuar tão bem, talvez aquela tolerância inicial estivesse acabando.

Homenagem a Lúcio Costa

Mais uma festa idealizada pela dupla Isn’t e The Six aconteceu no dia 1º de agosto de 1998, no Subsolo do Teatro Dulcina, palco mais importante da história underground da cidade. Essa festa foi em homenagem a Lúcio Costa, que tinha morrido em junho do mesmo ano. Essa foi uma das festas em que a arte e a música andaram lado a lado, pois contou com a exposição do artista brasiliense Fernando Carpaneda, que pouco depois se mudaria para NY onde continua fazendo artes incríveis.

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Cena Eletrônica – Flyer da festa em homenagem a Lúcio Costa

Livro de Fernando Carpaneda

1º F.A.M.E (Festival Aberto de Música Eletrônica)

No mês de setembro aconteceu um evento que acredito ser muito marcante para toda trajetória da ascensão da música eletrônica na cidade – o 1º F.A.M.E (Festival Aberto de Música Eletrônica) realizado no antigo teatro de arena do Eixo Monumental, lugar que posteriormente foi enterrado. Esse enterro foi muito simbólico do que estava por vir.

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Cena Eletrônica
Flyer da 1º F.A.M.E (Festival Aberto de Música Eletrônica)

Acredito que esse evento tenha sido um marco por vários fatores. Primeiro porque ele foi um evento aberto, em um espaço público no meio do eixo monumental, que era subutilizado. O evento foi ao ar livre, gratuito, no meio da cidade e onde foram recolhidos alimentos que depois foram doados para uma instituição de caridade. Além disso, foi o primeiro evento eletrônico totalmente produzido por mulheres, uma equipe maravilhosa formada por Adriana Quick, e as irmãs Paula e Circe Pratini.

O festival já mostrava uma nova safra de DJs que estavam aparecendo na cidade, um novo live PA com o Jason & The Plant, mais ritmos eletrônicos sendo incorporados por novos DJs e a aparição de Sérgio Collares, em sua primeira apresentação como DJ na cidade, embora ele já tivesse know how, talvez até mais que todos ali naquele momento. Falarei mais de Sérgio ao longo da história.

Cena Eletrônica – FAME – Acervo pessoal Quick

TUNTISTUN 2º Edição

O fanzine TUNTISTUN em sua segunda edição ganha reforço na equipe: Projeto gráfico e efeitos espaciais: Veruscka Girio (Astronauta Mecanico) Repórteres: Leonardo Silva (DJ LS2), Guilherme Mendes (DJ Oblongui), Ernani Pelúcio (DJ Vortex), Leonardo Cinelli, Nivas Gallo e Geyzon Dantas. Colaboração: Gaia Passarelli (do rraurl.com/br-raves), Marcelo Martins (SuperChocoBoy), Moema Tossin e Claudio K e Marketing: Leonardo Cinelli e Rosa Maria Cordeiro.

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Cena Eletrônica – Fanzine Tuntistun impresso

A segunda edição do zine trouxe uma matéria que falava sobre a produção nacional de música eletrônica.

tuntistun vol 2

Tinha um top five do Ls2 e um de classic house do Isn’t.

Aubrey – Marathon

Nesta edição também demos algumas dicas de músicas e de discos recém lançados, e fizemos uma materia sobre a ida do Jeff Mills a SP:

Moodymann – Mahogany Brown

Nova York

Logo após o F.A.M.E tenho a oportunidade de fazer uma viagem a Nova York. Minha irmã estava trabalhando, e portanto morando lá, e eu aproveitei para ir antes dela voltar para o Brasil. Foi uma viagem muito importante para mim como DJ, pois era uma época que fazia muita diferença fazer uma viagem dessa para comprar disco. E foi o que eu fiz basicamente lá, bati perna garimpando em loja de discos e no final de semana saia a noite. No sábado acabei indo ver o DJ Dave Angel e o Terry Lee Brown Jr. Fiquei sabendo da noite logo no primeiro dia, andando pelas ruas e vendo os cartazes espalhados pela cidade.

Cartaz anunciando Dave Angel e Terry Lee Brown Jr. em verde – Acervo pessoal Oblongui

Fui em diversas lojas de disco e passei muitas horas principalmente na Disc-o-Rama

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Disc-o-Rama

Na Satellite records

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Satellite Records

Na Sonic Groove

Sonic Groove

E na Vinyl Mania

Fachada e interior da Vinyl Mania – Acervo pessoal Oblongui

Nessa viagem eu consegui comprar vários discos de um selo que eu adorava, o Pro-Zak Trax. Era maravilhoso ver nas lojas quase a discografia completa. Era o crescimento do French House, pós lançamento do primeiro disco do Daft Punk.

Clássico da Pro-Zak Trax Grant Phabao – Tub

Kojak – Suspekt Delay

O início da F.U.S.E

Quando volto de NY, com um case e uma bag cheia de discos novos, toco na primeira FUSE.

A FUSE nasceu inicialmente da parceria da Couhutec,  produtora que eu participava com o Leo Cinelli e o Ernani Pelúcio, e com a Megatribe que era uma loja de roupas comandada pelo DJ Hopper. Na época a ideia era fundir galeras, coletivos e produtoras pensando no ideal de fazer uma pista excelente.

Foi minha primeira festa com os discos que eu tinha trazido de NY e voltamos ao espaço do Park Way onde já tínhamos feito umas festas no passado.

Cena Eletrônica – Flyer da festa FUSE

Park Mix Dance

Com o fim do projeto Park Dance, que aconteceu em 1996 e 1997 no Parkshopping, os produtores locais se encorajaram em utilizar o espaço do Shopping para realização de eventos, e em 98 os produtores mais voltados a música mais comercial também abrem os olhos para o boom da música eletrônica, e do espaço facilitado na mídia, pois tudo ainda era novidade. Assim aconteceu o evento dentro da parte de diversões do shopping, promovido por produtores que já tinham muita bagagem em produção na cidade: Hélio Kesseler, Neto Salut, Pedro Paulo e Anna Paula Couto.

Park Rave

No final de 1998 uma ação ousada aconteceu na cidade, a produtora de eventos Monday Monday que realizava até então eventos direcionados a música ao vivo e shows começa a querer participar desse boom que estávamos vivendo com a música eletrônica no mundo. À frente da produtora um empresário antigo e com história na cidade, Sergio Maione, o Monday. Minha relação com o Monday começa em uma ação anterior dele, uma festa no buraco do metrô, acho que da 112 sul, ainda na época da obra onde fui convidado como DJ para tocar em uma festa lá.

O Monday, como era chamado, tinha passado um verão em Ibiza e voltou alucinado com a música eletrônica, queria investir mais nisso e chamou o DJ JVC para tocar a parte artística. Eu e o DJ Ls2 somos escalados então para tocar na sequência de eventos Park Rave que aconteceu em um espaço que durante anos ficou com obra parada, ao lado do Venâncio 2000, e que viraria o Drive Park Estacionamento.

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Cena Eletrônica – Park Rave – Ernani Pelúcio, Leo Cinelli e eu

Esse espaço ficou durante anos fechado, sem uso, no meio de uma área muito valorizada e central da cidade. O local ficou embargado com um problema jurídico durante muito tempo e nesse ano antes de retomar a obra a produtora do Monday conseguiu fazer uma sequência de 4 festas entre setembro e novembro de 98. A festa ficou conhecida como Park Rave e seria feita em um prédio abandonado com uma obra semiacabada.

Cena Eletrônica – Park Rave

A primeira ida a Goiânia

Na véspera do Hallow Park Rave que aconteceu no estacionamento do Drive Park dia 31, eu toquei em Goiânia pela primeira vez. Essa ida para lá também teve uma excursão saindo de Brasília. Enchemos uma van e fomos para lá. Os DJs de lá eram o Hans, um grande cara e excelente DJ, e o André, hoje conhecido como DJ André Pulse, um cara que no início do crescimento da cena em Goiânia abriu uma casa um pouco depois de nome Pulse. Foi sem dúvida a casa mais legal do centro-oeste durante um bom tempo. André foi um grande apoiador da cena de Brasília.

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Cena Eletrônica – Flyer festa em Goiânia

André convidava DJs de fora, sempre nas quintas-feiras para a PULSE, às vezes de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, e também Brasília. A casa era fantástica, o Sound System e a ambientação eram maravilhosos! Com toda a certeza a Pulse levou todos os DJs que tocavam em Brasília para tocar lá, e todos voltavam maravilhados com a noite. E imaginar que toda essa parceria teve início nesse Halloween.

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Cena Eletrônica – DJ Andre Pulse e eu

Rave XXXperience – Psychedelic Invaders (14/11/1998)

Na véspera do feriado de 15 de novembro a Rave XXXperience desembarcava pela primeira vez em Brasília. A cidade estava se destacando dentro do cenário nacional. Lembro muito bem como os DJs de fora gostavam de tocar aqui. Era uma questão unânime, a pista de Brasília era uma das melhores. Foi questão de tempo para que o mercado externo olhasse para a cidade com mais atenção.

Nessa primeira edição os DJs que vieram foram: Alex Dee – Rica – Feio – Marky Mark (antes de virar apenas Marky) + Mc Kontrol – de Brasília foi escalado o DJ LS2. A festa foi bem legal, tinha um formato que variava do House ao Techno, do Trance ao Drum n Bass. E todos curtiram. Para o Drum n Bass da cidade e para a cena Trance acredito que essa festa tenha sido um divisor importante.

Cena Eletrônica – Flyer XXXperience

Cena Eletrônica – Flyer XXXperience

O novo tempo chegou

Em outubro de 1998 acontece a festa mais emblemática do ano, a que representaria toda a ascensão e a possível queda do boom que estávamos vivendo na cidade até então. Tínhamos consolidado e colocado em movimento uma juventude que buscava diversão com música de qualidade. Vários DJs, várias festas, público sempre se renovando e interessado em novidades sonoras, e até empresários e promoters mais tradicionais estavam querendo participar de tudo isso. Só que chegamos no ponto em que tudo mudou, era hora de conhecer uma nova realidade.

Longevidade

Era sábado, dia 24 de outubro. A noite vinha de uma sequência de festas geniais no subsolo do teatro Dulcina no Conic, espaço mais emblemático da cidade, onde todos nós devemos reverenciar como o berço de uma parte importante da cultura da cidade. Nós ravers não podemos deixar o Conic morrer nunca! Ele é nosso espaço de resistência, a resistência do Underground.

Nesta festa, Isn’t e The Six estão fazendo a comemoração dos 100 anos do cinema brasileiro e 90 anos da Natividade Sá. Nessa época, nas festas mais undergrounds, não era muito comum a repressão em festas e era muito raro ver a polícia em eventos.

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Cena Eletrônica – Longevidade

Mas essa noite era a véspera da eleição, onde seria eleito o novo governador da cidade e por isso, neste sábado, teria a lei seca que ainda era uma novidade nas eleições. Não lembro exatamente a quanto tempo vigorava a lei, mas era algo ainda recente. A festa, se fosse em outros períodos, passaria despercebida do poder público. Mas de tanto a música aparecer na mídia ainda impactada com o boom da música eletrônica na cidade, começamos a chamar a atenção das autoridades.

Eu tinha me preparado para ir nessa noite, então encontro um pessoal e sigo para o Conic. A quantidade de gente que estava na praça e na parte da frente do teatro, e nessa época entrávamos no Sub pela escada de cima, era imensa e mostrava que a noite seria animada.

Ao entrar na festa vejo aquilo de mais lindo para quem gosta de uma pista de dança: pessoas felizes, amigos na pista e sucesso de público. Os DJs Isn’t e The Six, como sempre, comandavam a noite. Acredito que por volta de duas horas da manhã um imprevisto acontece e anunciava novos e tenebrosos tempos para a noite de Brasília.

A partir deste dia e com a vitória e a volta do Roriz a coisa piorou muito, principalmente para a cena alternativa da cidade. A política de repressão ia dar as cartas nos próximos anos, e tudo o que tinha sido construído foi sendo destruído ano a ano, até o colapso.

Eu, por ter ficado fora do Brasil por um período entre 2002 e 2003, no auge da destruição da noite alternativa da cidade, acabei não guardando nessas mudanças o manual que foi criado para regularizar os eventos a partir dessa nova administração. Era um manual grande, com mais de 30 páginas de regulamentos, proibições, dificuldades e tudo mais para de fato inviabilizar a cultura noturna da cidade. O intuito era ir minando pouco a pouco as festas e os estabelecimentos que ofereciam música ao vivo ou mecânica.

 E foi um plano tão bem executado que muitas casas fecharam. Principalmente as que ficavam nas entrequadras comerciais.  Se você andar por elas hoje em dia verá o deserto na maioria dos lugares à meia noite. Os que ainda sobrevivem são os bares, sem música e os restaurantes, que normalmente fecham mais cedo. 

Estamos na festa e inesperadamente surge a PM do Distrito Federal e invade a festa, não para simplesmente fiscalizar a venda e evitar o consumo de álcool, já que tínhamos de obedecer a lei seca, mas para acabar com a festa. Com uns trabucos na mão eles invadem o Sub, bem no auge da festa, e criam uma sensação bem estranha. Enquanto alguns se olham incrédulos com a cena, outros começam a sair da festa. O som pára, o cenário começa a ficar tenso e uma resistência começa a se formar em frente ao palco.

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Cena Eletrônica – Longevidade

Eis que a cena mais representativa e inusitada começa a acontecer. O DJ Isn’t, que naquela noite estava tocando apenas de cueca, sobe em um palco e começa a puxar um coro: MUSIC NON STOP! MUSIC NON STOP! MUSIC NON STOP!

O público que estava resistindo logo entra na onda do protesto e começa a cantar junto a música ícone do grupo alemão Kraftwerk que influenciou toda uma juventude contestadora. Para nós, era o começo do fim do sonho de uma juventude que nunca foi representada por agentes políticos, e por conta da truculência enfrentada com a polícia não conseguiu resistir mais. Não era só o fim de uma festa, mas também foi o fim de um tempo que infelizmente chegava ao fim: a era mágica e de encantamento.

Essa era terminou com um ato simbólico e marcaria o que estava por vir nos próximos anos, teríamos muitas provas para reafirmarmos os aliados e os inimigos. O fim desta festa com essa cena, no lugar que foi, eu só compreendi a representatividade histórica alguns anos depois.

Estávamos ainda sem saber onde isso tudo ia dar. Continuarei em breve.

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DJ Oblongui

1 comentário em “1998 o ano que mudou a cena eletrônica de Brasília”

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