Linkage – O mago do Drum n’ Bass

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Linkage é sem dúvida um dos grandes talentos da cidade. Poucas pessoas são unânimes, e certamente Linkage é um desses considerados no topo. Com técnica e gosto musical apurado, linkage conta hoje no TUNTISTUN a sua trajetória.

TUNTISTUN: Grande Linkage, tudo bem? É uma alegria fazer essa entrevista com você que é um dos Djs mais talentosos da cidade. Vamos falar um pouco da sua trajetória, beleza?

LINKAGE: Beleza! Fico feliz pelo convite. Agradeço a consideração, Tuntistun.

TUNTISTUN: Vamos falar um pouco do início de tudo? Conte mais sobre você, onde nasceu e como foi sua infância e adolescência?

Nasci e cresci em Brasília, morei 8 meses em São Paulo, e voltei para capital. Aqui permaneço até hoje. Tive uma infância sem grandes problemas vivendo em bairro de classe média. Nessa fase a veia artística já se manifestava através do desenho. Eu gostava muito de desenhar e inclusive fui pago para fazer retrato de membros da família. Eu fazia muito desenho observacional, além de histórias em quadrinhos e desenho livre. Cheguei até a entrar numa escola de desenho, mas a técnica não me interessava naquela época, e larguei o curso poucos meses depois. Paralelamente, comprava discos de Heavy Metal e Rock.  Já na adolescência, como sugere a fase, tive minha cota de problemas me envolvendo em brigas na escola, rixas de gangues, skate, e entrando de penetra nas festas. Concomitante a tudo isso veio o interesse por tocar que paulatinamente substituiu o desenho.

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TUNTISTUN: Você sempre foi um cara ligado em música desde cedo? Qual sua relação com a música na sua juventude?Vamos falar um pouco do início de tudo? Conte mais sobre você, onde nasceu e como foi sua infância e adolescência?

Sim, desde cedo. Meu irmão mais velho teve papel importante nisso. Segui seus passos comprando LPs já aos 6 ou 7 anos. Basicamente Rock e Heavy Metal, coisas mais mainstream mesmo: Kiss, Iron Maiden, AC/DC, Ozzy Osbourne, para citar alguns. Na juventude, quando o interesse por festas veio aos 11 ou 12 anos, meus ouvidos se voltaram a música eletrônica da época, basicamente o Freestyle, Miami e Electro. Naturalmente com o passar dos anos fui acompanhando as diversas mudanças na dance music.

TUNTISTUN: Quando e como você descobriu a música eletrônica?

Foi aos 11, 12 anos, em 1990, precisamente. Naquela época eu era muito ligado em tudo que tocava nas rádios. Passava o dia inteiro gravando a programação normal e aguardando ansiosamente pelos programas voltados a dance music de FM,  que era basicamente o que tínhamos de música eletrônica em Brasília. A grande espera vinha aos fins de semana, principalmente aos domingos, quando de meio-dia às 8h da noite na Rádio Manchete, um programa chamado Domingo Super Contagiante tocava blocos de 30 minutos de cada uma das principais boates de Brasília e cidades satélites. Esse programa foi uma enorme referência musical para mim, pois tocava outros estilos além daqueles tocados nos programas de dance music diários, tais como Rave e Hardcore.

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TUNTISTUN: Quais foram suas primeiras festas e Djs que te abriram os olhos?

As primeiras festas foram aquelas que ocorriam no meu bairro, Lago Norte. Tipicamente festas de aniversário e algumas promovidas por algum tiozão descolado. Na maioria das vezes eu entrava de penetra pulando o muro das casas (risos). Além, é claro, festas que eu conseguia fechar para tocar.

Os primeiros Djs que abriram meus olhos definitivamente foram Celsão e Elyvio Blower e, posteriormente, em 1995, quando fui pela primeira vez a uma festa totalmente eletrônica, a Existan Cel: Oblongui, Cnun (Isn’t) & Sunrise 1 (The Six). Lembro de ter lido uma matéria (acho que de folha inteira) no jornal Correio Braziliense que imediatamente chamou minha atenção. Quando vi que a festa seria no meu bairro, não perdi a chance. Eu tinha apenas 17 anos e não conseguia me deslocar com facilidade para muito longe. Então foi a oportunidade. Ali ocorreu a mudança de paradigma, o game changer, numa época que eu já estava cansado de tudo que era tocado e já tinha mergulhado de cabeça no Jungle.

Para minha surpresa, músicas como Demolition Man – Fire (Rogue Unit VIP Remix) e Family Foundation – Express Yourself (95 VIP Mix) terem tocado nessa festa mudou tudo pra mim. Assim como toda uma gama de novas estéticas sonoras e visuais que eu jamais tinha experimentado. Lembro-me de algo que marcou profundamente essa mudança de paradigma: as músicas serem instrumentais e ritmicamente complexas. Isso foi um choque pra mim. Até então o que eu ouvia em termos de música eletrônica era quase impossível que não houvesse vocais. Ali tive o primeiro lampejo do conceito de festa underground, que posteriormente descobri tratar-se da tal cena clubber de Brasília.

TUNTISTUN: E logo que você gostou da música decidiu ser Dj? Como foi esse caminho?

Uma coisa levou a outra. Eu já ouvia os programas de rádio dedicados a dance music pouco antes de sair para festas. Além disso, ouvia e gravava todo tipo de música que era tocada nas rádios. Mas foi quando meu irmão mais velho me convenceu a ir a uma seresta (festa que ocorria 1 vez por mês, acho) na igreja local e que eu vinha recusando o convite por saber que ocorria no salão da igreja, mas pensava tratar-se de uma missa, já que meu irmão fez 1ª comunhão lá e eu odiava ir à igreja. Mas ali pude assistir pela primeira vez um DJ tocando ao vivo, e de cara um set com as músicas que eu estava curtindo naquele momento, e soube que era o que eu queria fazer. Foi o gatilho que eu precisava para ser DJ. O fato de naquela época eu ser muito tímido também contribuiu para minha posição na mesa de som ao invés da pista de dança. Isso só acelerou o processo.

TUNTISTUN: Quais são suas influências como DJ?

Ter o prazer em ouvir sets bem construídos, com uma tracklist bem pensada e mixada, com uma sequência coerente. Adoro sets que contam história. Eu gostava muito dos sets de LTJ Bukem, obviamente, e Slipmaster J. Atualmente, Scott Allen e Furney.

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TUNTISTUN: E sobre os anos 90 e 2000, quando você esteve bem ativo, conte um pouco sobre como foi ter vivido esse momento de ouro da música eletrônica?

Olha, já falei isso para alguns amigos e vou falar pra você, e digo que não é saudosismo ou aquele papo de “tempo bom foi na minha época”. As coisas mudam: música, público, conceitos, estéticas, etc. Mas sou privilegiado de ter vivido as festas de música eletrônica mais loucas e criativas que existiram em Brasília. Cada festa tinha uma temática impossível de não se interessar, especialmente na decoração e vibe criadas. O público se engajava para se arrumar e fazer jus a cena clubber da cidade. Não tinha como ficar de fora. Os flyers eram incríveis! Não deixavam a desejar para os dos gringos. Era um orgulho guarda-los e dizer que participou daquelas festas. Foi um momento muito criativo da cena eletrônica de Brasília, em que se investia na direção de arte e na proposta de cada uma delas. Tenho certeza que cada pessoa que esteve presente nessas festas guarda memórias para sempre. Tocar em algumas era privilégio, coisa para se orgulhar. Tivemos 3 clubs (Wlod, Miqra e Crex Crex Crub) que fizeram história e ajudaram a firmar a cena de Brasília no mapa do país. Quem vinha de outros estados percebia que Brasília tinha autenticidade, uma cena diferente das demais do Brasil.

Musicalmente falando, tocou de tudo. Havia espaço para experimentação, liberdade para tocar o que desse vontade, sem se preocupar demais com a pista. Foi nesse ambiente que pude introduzir uma vertente de drum & bass difícil de ser compreendida naquela época, que sofria preconceito, e que me rendeu bastante frustração, mas motivo de orgulho também. Eu achava as músicas tão incríveis que pagava para ver, independente de correr o risco de esvaziar pista (que inevitavelmente ocorreu diversas vezes). Apesar da ralação em insistir naquele som, foi ele que anos depois, na primeira metade dos anos 2000, me rendeu festas em outros estados e inclusive participar de festivais. O sofrimento valeu à pena.

TUNTISTUN: Diz para gente 5 músicas que te marcaram no início da sua descoberta na música eletrônica?

TUNTISTUN: Você é um dos DJs referência da cidade, o que você espera ter influenciado positivamente na galera?

Ter contribuído para chegar às pessoas músicas incríveis que de outra forma talvez não tivessem tido a oportunidade de ouvi-las.

TUNTISTUN: Tem algum(a) Djs da nova geração que você acha que merece a nossa atenção?

Sim, La Caracortada. Esse rapaz fez um curso de DJ comigo e desde o início percebi seu entusiasmo e amor genuíno por música, além da dedicação em aprender da forma mais correta todo o processo, sem aquela pressa por resultados típica da nova geração. Mas o que mais chamou minha atenção foi seu gosto musical já bem refinado.

TUNTISTUN: Você viveu bem as dificuldades que era ser DJ na década de 90/2000, como você imagina a realidade das dificuldades do passado e as dificuldades dos tempos atuais?

Basicamente acesso à informação, grana para comprar todos os discos (naquela época só tínhamos vinil e CD como mídias) e diferentes meios de divulgação do seu trabalho (consequentemente acesso maior as pessoas). Naquela época simplesmente não dava para ter acesso à todas as músicas se você não fosse rico e não conhecesse quem pudesse trazer seus discos para não depender apenas de algumas poucas lojas no Brasil e uma meia dúzia na gringa que já tinham sites na web. Os discos eram caros pois em moeda estrangeira e sempre taxados com o maldito imposto de importação de 60%. Além da forma limitada de divulgação do seu trabalho, que resumia-se em gravar tapes para distribuição em festas, já que divulgação de set na internet era algo que ainda não estava no horizonte. Hoje, basicamente você divulga todo seu trabalho na web. Tem acesso à todas as músicas por N plataformas (tanto mídia física quanto digital). Porém, a grande dificuldade que tínhamos na década de 90 e início dos anos 2000, acesso à informação, hoje tornou-se um grande problema focar e organizar tudo. E se você é um pesquisador como eu, que quer saber tudo que está sendo produzido dentro dos estilos que você curte, conseguir tempo para ouvir uma quantidade gigantesca de músicas que foram lançadas (além daquelas que não foram lançadas – dubplates) depois de 2005 com a democratização dos meios de produção (softwares, home studio), é de certo modo angustiante. Outro problema que vejo, além da saturação de músicas no mercado, é a proliferação de DJs e a consequente dificuldade de se destacar. Francamente, e isso é apenas minha opinião, se o DJ não tem um talento muito especial, algo que o tire da vala comum, melhor partir para a produção musical se quiser galgar outro patamar na carreira. E isso é algo que eu recomendaria a qualquer um. No Brasil temos uma cultura de gerações de DJs de música eletrônica, mas não de produtores.

TUNTISTUN: Pode indicar 5 músicas mais recentes que você tem curtido?

TUNTISTUN: O que que te encanta atualmente ao escutar um som?

Essencialmente os mesmos elementos que me encantavam quando eu estava na ativa. Aqueles chamados “moody, dreamy, cosmic sounds”. Sons que combinados majestosamente criam uma vibe interessante e muitas vezes atemporal, algo semelhante a músicas compostas para filmes, que não raro são sampleadas e usadas em tracks de drum & bass que eu curto. Além de samples de vocais ou diálogos que quando bem escolhidos, manipulados e combinados com os demais elementos, fazem toda a diferença numa track.

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DJ Oblongui

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